PT

maio 2026
O filósofo José Ortega y Gasset escreveu uma frase, há mais de 100 anos, que ainda hoje se adapta a quase tudo na vida: “Eu sou eu e as minhas circunstâncias […].” O pensador espanhol pretendia refletir sobre a importância da individualidade, sem a mesma estar afastada e isolada do meio e do contexto em que se inseria. Era como uma osmose entre o ser e o estar, entre o individuo e o ambiente que o rodeava.
João Vicente Pinto construiu-se enquanto atleta muito por influência do que estava à sua volta. O irmão mais velho começou a jogar ténis quando ele, ainda não tinha plena consciência dessa(s) circunstância(s). “Teria uns três anos quando vi os primeiros treinos.” Na altura viviam em França, terra com historial de grandes competições e de campeões. Quando viu esse campo de terra batida de tom escarlate, o primeiro impulso foi pedir para experimentar. “Não tenho muitas recordações desse dia, mas deve ter sido amor à primeira vista”, diz.
Quando hoje viaja pela galeria de imagens do telefone, um verdadeiro repositório de memórias visuais que a cabeça teima em não guardar, olha para os vídeos de quando era pequeno, de quando a raquete era quase maior do que ele. “Sinto que tinha jeito e que era aquilo que gostava mesmo de fazer.”
Aos 14 anos, feitos há poucas semanas, João Vicente Pinto conta já dez de treinos e experiência(s) na modalidade. Começou por jogar no clube francês onde o irmão também alinhava, o USM Tennis, em Le Mans, e foi aí, nesse espaço que rapidamente se tornou uma segunda casa, que encontrou o ambiente que o transformou num talento com futuro. “Lembro-me de que, mais do que estar dentro do campo a treinar, o que mais gostava era de estar no clube a ver os treinos, a falar com os treinadores, a falar com as senhoras do bar. Porque, como eu era pequenino, dava muita importância à ligação que tinha com as pessoas.”

© D.R.
Ainda lá atrás, aos seis anos, a vida mudou. A família regressa a Portugal. Muda-se para um país que apenas conhecia das férias de verão. “A primeira coisa que os meus pais fizeram assim que aqui chegámos foi procurar um clube de ténis”, conta. Entrou para o Club Sportivo Nun'Alvares, onde esteve quatro anos; seguiu-se o Clube de Ténis do Porto, “onde treinou durante dois anos”; hoje, alinha na formação do Sport Clube do Porto. Em todos estes sítios, encontrou treinadores que o colocaram no caminho certo. “Procuro sempre um treinador que espere de mim ainda mais do que aquilo que eu espero. É essa intensidade que faz a diferença e me ajuda a evoluir ainda mais”, destaca.
As competições surgiram aos 11 anos, quando jogava na categoria de sub-12. “A primeira competição de que me lembro foi o Nacional de equipas no Jamor e, logo depois, o Nacional Individual em Vilamoura.” E os resultados? “No Jamor, a minha equipa foi semifinalista e em Vilamoura perdi no qualifying, mas nada de que não estivesse já à espera”, sorri, com a esperança no olhar.
Os resultados ambicionados acabaram por chegar: em 2023, foi campeão nacional sub-12 por equipas, num torneio da Federação Portuguesa de Ténis – “foi muito intenso, uma emoção muito grande, não estava nada à espera!” – e, em 2024, começou a sua internacionalização, com destaque para o Torneio Robey FOCUS TA Open 2024, nos Países Baixos, de onde conseguiu sair com o título de campeão de pares masculinos sub-12.
Tudo isto sem ter grandes expectativas, até porque, assume, “não ser o favorito é sempre mais fácil do que ter os holofotes apontados para nós”. “Podemos jogar sem pressão porque ninguém está propriamente à espera que vá ganhar.”

João Vicente Pinto © D.R.
Neste ano, e agora que já está no escalão de sub-14, o sonho continua. O atleta quer conquistar algo que nunca conseguiu antes: “Gostava muito de ser campeão nacional individual em sub-14, já é o segundo ano em que estou nesta categoria e tenho mais hipóteses de conquistar o título.”
Algo que pode abrir caminhos para sonhos ainda mais altos, para essa chegada a uma espécie de Olimpo que todos querem alcançar, mas que só os melhores – ou os mais fortes, física e mentalmente – conseguem.
“Acho que todos os tenistas gostavam de ganhar um Grand Slam”, sorri. “Talvez Roland Garros.” Clássico. “Ou o Australian Open.” Surpreendente. “Mais por influência da minha mãe, que me disse que gostava, um dia, de ir à Austrália”. Era uma espécie de “dois em um”. “Ir lá com ela e ganhar a competição.” Uma felicidade em dose dupla. Que assim seja.
Partilhar
FB
X
WA
LINK
Relacionados