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Porto de Alta Competição
Como uma coreografia, Inês Duarte encara a esgrima com detalhe e precisão
Entrevistas
Aos 17 anos, é um dos valores da esgrima nacional, com provas conquistadas e internacionalizações no currículo.
Porto Alta Competicao Jun Ines Duarte

junho 2026

Tal como num jogo, aqui procura-se “fugir” do outro de forma inteligente, perspicaz, astuciosa. Tal como numa dança, os movimentos parecem coreografados, como se o detalhe fosse mais importante que o todo, como se os pormenores fossem o motor de um bailado misterioso, cheio de elegância. Os figurinos não privilegiam quem os enverga, mas, sim, o cenário, diluindo os intérpretes num manto de segredo. A esgrima é um desporto, mas pode bem ser também uma coreografia de movimentos minuciosos e um jogo cheio de sensações.

Foi em 2018, quando frequentava o 5.º ano de escolaridade, que Inês Duarte descobriu aquele que viria a ser o seu desporto de eleição. Os pais, atentos ao desenvolvimento da filha, decidiram inscrevê-la num campo de férias promovido pela Universidade do Porto. Dentre dezenas de atividades programadas para essas semanas, encontrou uma que lhe despertou curiosidade: esgrima medieval. “Como aquela que vemos nos filmes antigos, cheia de princesas e de reis.” Nunca pensou que essa experiência, quase por acaso, pudesse ser tão transformadora. Mas, para uma criança de 11 anos, houve outro fator que contribuiu para que se interessasse ainda mais. “Havia uma série da Disney, a Ladybug, em que as personagens praticavam esgrima. Fiquei ainda mais curiosa, fui pesquisar sobre isso e descobri que havia clubes no Porto com essa modalidade.”


Assim, aos 12 anos, integrou a equipa de esgrima do Boavista FC. “Acho sinceramente que o que me encantou foi o facto de ser um desporto diferente, não ser tão comum”, admite. Tão diferente como ser praticado com um objeto que, apesar de parecer, não é de ataque. “A esgrima pode ser praticada com um florete, aquele que é mais conhecido, mas também com uma espada ou um sabre. No meu caso, uso o sabre, porque era a única categoria que existia no clube”, diz.


Ora, quando não existe alternativa, a única hipótese transforma-se em especialidade. Inês Duarte é, hoje, um dos segredos bem guardados que o futuro ainda vai conhecer, apesar de já ter conquistado títulos de campeã nacional e ter alinhado na seleção nacional de esgrima. Cada competição é um desafio, cada prova é uma dança coreografada em que os gestos são calculados, os detalhes fazem a diferença e os pormenores podem decidir quem vence um confronto. “Tudo isto feito de forma muito elegante, de mistério, encanto e magia”, revela a atleta. Para isso muito contribui a máscara que usam, os tempos que se praticam, os gestos pausados e muito ponderados que impõem.

Porto Alta Competicao Jun Ines Duarte

© DR

A importância da treinadora


Mas, nesta “dança” entre dois “intérpretes”, nem sempre o mais capaz consegue vencer, nem sempre o mais forte leva a melhor. “A esgrima é um desporto de precisão, a inteligência em gerirmos esse encontro e a forma como dominamos as regras que aprendemos são mais importantes do que a rapidez e a força física”, destaca Inês. Porque, mais do que a robustez do corpo, o que importa é a força da mente, a clareza do pensamento e a capacidade de analisar o gesto e o momento, desenvolvendo a competência de antever o que o parceiro irá fazer na jogada seguinte.


Hoje, aos 17 anos, e depois de temporadas e títulos conquistados no Boavista, a atleta integra a equipa do 1.º de Dezembro - Associação Recreativa Valboense. A mudança fez-se com a treinadora dos últimos anos, porque encontrou nela a força que precisa para continuar um percurso que se quer de consecutivos títulos. “Acho que ela sabe incentivar os atletas de uma maneira que nunca nenhum outro treinador conseguiu fazer. Insiste para darmos o melhor que temos e para nunca desistirmos, para acreditarmos sempre em nós”, lembra. E essas são palavras que a acompanham nos desafios em que entra, dos mais previsíveis aos mais inesperados.

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© DR

“No ano passado, representei Portugal nos Jogos do Mediterrâneo, é algo de que nunca me vou esquecer. Senti orgulho e alegria por representar o meu país. Mas senti muito nervosismo, é uma responsabilidade grande”, sorri. Mas não se esqueceu do que sempre lhe disseram. “Acreditar em mim. Mesmo quando não corre bem. É o que faço.”


A esgrima continua a ser um desporto pouco conhecido. Apesar do destaque que os Jogos Olímpicos têm dado à modalidade, há ainda um caminho a percorrer. “Acho que podia haver mais equipas, mais atletas, mais clubes a apostar neste desporto.” E isso acontece, acrescenta, “porque há ainda a ideia de que aqueles objetos que manuseamos acabam por magoar, que é violento, mas é totalmente falso”.


Ao longo dos anos em que tem praticado a esgrima a alto nível, Inês já aprendeu o maior dos ensinamentos: “ter disciplina”. Ser mais confiante. No desporto e fora dele. “Na escola, com os meus amigos, em família”, acrescenta. Essa confiança leva-a a querer representar Portugal nos Jogos Olímpicos – “o sonho de qualquer atleta” -, apesar de saber que “é preciso ter os pés bem assentes na terra e saber aceitar cada coisa na sua vez”. Até lá, tem de continuar a treinar “muito”, como diz. Melhorando a técnica e acreditando sempre.

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