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abril de 2026
Diamantino Mendes foi o grande responsável pela filha, Carla, ter descoberto o desporto que transformou para sempre a sua vida (mas não foi o único). “O meu pai apaixonou-se pelo remo no tempo da marinha e trouxe de lá esse desporto náutico.” Esse amor de tempos passados fez com que “Tininho”, como é mais conhecido, integrasse o Clube Fluvial Portuense, onde competiu. “Quando era mais nova e não tinha com quem ficar, ia com ele para o clube. Foi ali que cresci, que vi os atletas a conviverem e segui, pela primeira vez, com o meu pai na lancha, rio acima, para acompanhar outros atletas.”
Ainda hoje, com 72 anos, “Tininho” é um apaixonado pelo remo: “sai todos os dias para o rio, manhã cedo, para evitar os momentos de maior agitação no Douro.” Tem a vantagem de ser muito magro, é ligeiro, vai a galgar por ali acima”, diz Carla, a rir. “É um homem que consegue passar a sua paixão pela forma como sempre viveu o desporto”, acrescenta. E ainda hoje se lembra daquela noite em que o pai, à mesa, “batia com a colher na sopa e mostrava como o remo deve abordar a água”. Uma imagem que valeu muito mais do que milhares de palavras.
Além da influência do pai, outro motivo levou Carla a tomar a decisão de entrar mais a sério no remo. “Lembro-me, quando era adolescente, de ter conhecido um rapaz muito fixe na escola, que fazia canoagem. Talvez para querer ser como ele, pensei que [seguir um desporto náutico] podia ser algo interessante. Foi, afinal, o destino que me levou ao sítio onde sempre estive, o Fluvial.” Quanto ao rapaz, nada sabe. “Nunca mais o vi, serviu apenas como bandeira”, conta, a rir.
Apesar de, no início, achar o remo uma modalidade “’seca’, por ser sempre no mesmo ritmo”, o que a levou a ter a certeza da escolha foi a primeira competição em que participou. “Tinha 15 anos e era mais corajosa, foi uma aventura”, conta. “Lembro-me do meu pai na margem a gritar para eu levantar a cabeça, porque ia a remar a olhar para os pés e devia observar o ambiente à minha volta. Essa falta de noção do perigo fez com que aquela prova fosse incrível. Hoje já encaro tudo de forma mais responsável”, acrescenta.
Com 48 anos, Carla Mendes conta mais de 30 enquanto atleta, somando muitas vitórias e algumas derrotas. “Sei que sou das poucas mulheres com a minha idade e com a responsabilidade que tenho – família e filhos – ainda a competir. Sinto que tenho a missão de passar essa mensagem”, afirma. “Não é nada de extraordinário, basta continuar a treinar. Eu não sou muito organizada, mas enquanto sonho, isso alimenta-me a alma e faz com que as coisas pareçam mais fáceis.”
A atleta tem noção de que, com a longevidade que conseguiu na modalidade e com as provas nacionais e internacionais em que participou, se transformou, mesmo sem querer, numa referência para as restantes companheiras. “Sei que elas me veem assim, mas prefiro fazê-las conduzir as suas carreiras de forma intuitiva, tal como fiz. Porque o segredo de cada atleta está em respeitar a essência de cada qual”, revela.

Carla Mendes nas eliminatórias do World Rowing Virtual Indoor Championship © D.R.
Mas desengane-se quem acha que isto são favas contadas. O remo é um desporto exigente que requer técnica, aliada à força e à resistência. Para isso, são essenciais “os treinos de musculação, os exercícios de longa distância [endurance] e treinos com maior intensidade”.
Carla é irmã de Nuno Mendes, atleta de remo, com duas participações em Jogos Olímpicos (Pequim 2008 e Londres 2012). Hoje, é o treinador da equipa de remo do Clube Fluvial Portuense. A ele se deve também a afirmação do remo feminino e da crescente visibilidade das atletas do clube. Além do pai, um veterano como poucos, e do irmão, Carla tem também nesta modalidade a filha, Laura Mendes, por quem sente, assume, “uma admiração gigantesca e um orgulho muito, muito grande”, e foi lá que encontrou o atual companheiro, “que entende toda a exigência e o processo” de uma campeã.
Recentemente, Carla conseguiu arrecadar o segundo título mundial de campeã de remo indoor, numa competição disputada à distância, através de ergómetros – simuladores de remo que permitem praticar a modalidade fora de água. A vitória era um objetivo traçado para este ano pela atleta que, para o futuro, quer continuar a competir ao nível das veteranas e contribuir para dar visibilidade ao remo feminino. Até porque, para ela, “todas as mulheres que pegam num barco e se dispõem a remar, são heroínas”. De carne e osso, contra vento e marés, por amor ao desporto.
Carla Mendes é convidada da terceira temporada do podcast “Porto de Alta Competição”, projeto da Ágora – Cultura e Desporto do Porto, que dá voz aos atletas apoiados pelo Programa de Patrocínio a Atletas de Alto Rendimento e Elevado Potencial Desportivo.
Fotografias: © D.R.
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