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Na altura do ano em que o hemisfério norte mais se inclina para o Sol, um sem fim de cabeças curvaram-se para acompanhar as piruetas das aeronaves do Air Invictus. Umas voltadas para o céu, desde a Ponte Luiz I até aos Cais das Pedras, outras apontadas para baixo, em vários miradouros da cidade. No alto ou na marginal, o astro-rei estava impiedoso e não havia sombra, fosse de uma árvore ou de uma paragem de autocarro, que não estivesse ocupada por alguém.
O ambiente era de romaria nos Jardins do Palácio de Cristal. Se alguns, de passagem, se abeiravam aos patamares acima da Casa do Roseiral para entender o que observava aquele magote de gente, outros vinham mais do que preparados. Geleiras azuis despontavam em cada arbusto, mantas de piquenique eram alisadas com aprumo e ventoinhas portáteis passavam de mão, enquanto uma bola ou um baralho de cartas entretinha as companhias menos interessadas nos aviões. “Olha, filho, vem aí mais um!”, repetia-se aqui e ali.
Os especialistas, que assistiam no telemóvel à transmissão em direto do evento e apresentavam ao grupo os currículos de cada piloto que surgia, misturavam-se com os iniciados e os distraídos, que só depois de ver os gigantes cones insufláveis a boiar no Douro se apercebiam de que havia corridas além das demonstrações. Com o verão a aterrar e o São João no horizonte, a festa pairava em mil e uma línguas e sotaques.

Um avião espanhol realiza o percurso cornometrado do Air Invictus, sob o olhar de muito aficionados e curiosos na marginal e nos Jardins do Palácio de Cristal | © Nuno Miguel Coelho
Cabeças-no-ar, mas com a atenção de controladores
Entre voo para cá e voo para lá, o tráfego era intenso nas escadarias que unem a alta a Miragaia, tal como nas janelas e varandas em redor. Um avião da Força Áerea, estacionado à porta do Centro de Congressos da Alfândega, era pequeno comparado com a fila que queria entrar no edifício para ver a Eyes in the sky, apresentada como a “primeira feira da indústria de defesa aérea, aeronáutica e aeroespacial organizada em Portugal”. A poucos metros, no Parque da Alfândega, diferentes postos de restauração reuniam muitas pessoas de copo e petiscos na mão, algumas das quais até arriscavam uma dança quando a música festiva ocupava o espaço aéreo.
Mais ao lado, outras dezenas refugiavam-se sob as árvores do parque de estacionamento municipal. Os intervalos entre a passagem de aviões davam para falar da seleção no Mundial, do governo e da oposição, dos planos para as férias, do solstício ou de restaurantes recomendados. Grupos de ciclistas, equipados a rigor, amontoavam as bicicletas num canto à espera para ver outro tipo de corredores. Em cadeiras de praia ou colchões de campismo, outros aproveitavam para descansar uns momentos. Mas, um abrir e fechar de olhos depois, quem roncava era um motor, e a massa voltava à margem em bloco para ocupar o seu lugar, numa coreografia paralela à dos céus: os corpos alinhavam-se, erguendo telemóveis ou objetivas do tamanho de braços, empinavam os narizes como os aviões e, numa sincronização perfeita, giravam-se ora para a Luiz I, ora para a Arrábida.
Em comunhão, todos aplaudiram o checo Petr Kopfstein, o mais rápido na corrida principal, à frente do seu compatriota Martin Sonka e do espanhol Juan Velarde. Sons trazidos pela tímida brisa e um mar de pontinhos coloridos a piscar confirmavam que o público era também mais do que muito do outro lado do rio. Porto e Gaia olhavam-se ainda mais do que todos os dias, com a sua fronteira natural de novo transformada em ponte aérea.
Nove anos depois da última edição da Red Bull Air Race, o Air Invictus atraiu muitos milhares durante três dias, em que, além da competição, houve acrobacias, espetáculos de drones, exibições em terra e até atuações musicais, um total de 15 eventos que se estenderam ainda aos concelhos da Maia e de Matosinhos.

Voo do segundo classificado da corrida, Martin Šonka, atleta checo com grande palmarés na área da aeronáutica freestyle | © Nuno Miguel Coelho
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