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abril 2026
Com “seis ou sete anos”, numa visita a um primo do pai, Ivan maravilhou-se ao ver “uma coleção gigante de CD” e ao ouvir à guitarra o anfitrião, “um cara enorme, mas de voz doce”. Decidiu que havia de ter uma fonoteca daquelas e começou a amealhar até os trocos que recebia para comprar o lanche. A fome pela música – que não abundava em sua casa – cresceu com ele, tanto que quando decidiu estudar História na universidade foi “já pensando em trabalhar com a História da Música”: “queria correlacionar o que eu ouvia e os momentos sociais”.
Nessa altura, Ivan era fã de Moraes Moreira, um dos vocalistas da banda Novos Baianos, que em 1972 publicou Acabou Chorare, considerado um dos discos mais influentes da música brasileira. Quando soube que o cantor ia atuar na sua cidade, o rapaz pegou nos álbuns que tinha dele e procurou-o no hotel. “Eu tinha 18 anos, não era fã dos Novos Baianos, mas da obra dele Solo, que é diferente, é menos charmosa”. Era noite, Moraes Moreira já dormia, e mandaram o muleque voltar de manhã. O artista recebeu-o no dia seguinte, deixou-lhe o seu email e começaram a corresponder-se.
Anos depois, o cantor perguntou-lhe se conhecia “um pesquisador na área de História”, porque estava a escrever um livro chamado “Sonhos Elétricos”, sobre o Carnaval. Lima disse que se estava ainda a formar, mas podia ajudar. E quando Moraes Moreira questionou se ele já tinha feito um trabalho semelhante, o jovem, que “nunca tinha pesquisado nada na vida”, mentiu: “muitas vezes”. “Foi uma honra trabalhar com um gigante da música brasileira. Ninguém acreditava até ao dia que ele ligou para minha casa e a minha mãe atendeu”, recorda sorridente.
Mais tarde, num mestrado em História Contemporânea, Ivan Lima decidiu investigar a música produzida durante a ditadura militar brasileira. Centrou-se na obra de Odair José, um cantor brega (género equivalente ao pimba) “que foi bastante censurado na altura”, apesar de o seu caso não ter tido a notoriedade dos de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Raul Seixas ou Rita Lee. As letras de Odair não eram propriamente políticas, mas falavam de traição amorosa, de motéis e outros traços da “transgressão moral” que não agradava à ditadura (em 2025 saiu um documentário sobre o cantor, em que Ivan participou como pesquisador).
A música estava no centro do seu trabalho académico, mas não pagava contas. Começou então a dar “aulas no ensino médio” (equivalente em Portugal ao secundário) e usava canções para ajudar a explicar “os eventos históricos”, “não só as letras, mas também os conteúdos que são plásticos”. Os estudantes “adoravam”, diz o professor, cujo salário servia para “comprar mais CD”. Ouvia-os a caminho da universidade, no autocarro, enquanto lia de “maneira fervorosa” e sem pressa os encartes. “Acho que foram a minha maior enciclopédia”, explica, “estava-me entretendo, mas não tinha consciência de que aquilo no futuro seria um baú”.

Álbum de estúdio de Odair José, lançado em 1977. | © DR
Em termos de gostos, o investigador assume que sempre foi “brasilianista”, apesar de a mãe ouvir “muito Michael Jackson, Stevie Wonder ou Lionel Richie”. Até que teve uma namorada “doida” por Portugal, que lia literatura lusa, estudava o português europeu, ouvia fado, Heróis do Mar e “muito Madredeus”, banda que, segundo nos conta, teve grande popularidade no Brasil nos anos 90, nomeadamente com o disco Existir e a música O Pastor, que abria uma popular série sobre Os Maias. Terminado o namoro, ficou a influência. Ivan continuou a ouvir música lusa e, mais tarde, “por volta dos 2000”, conheceu os Toranja e também os Clã, graças à banda Pato Fu e ao músico Arnaldo Antunes, com quem o grupo portuense colaborou na época.
Em 2012, Lima viajou pela Europa e ficou encantado por Lyon e pelo Porto. “Eu disse: vou morar numa dessas cidades”. Seis anos depois, decidiu dar o salto. Foi selecionado para um doutoramento na Faculdade de Letras e mudou-se para a terra a quem o poeta João Cabral de Melo Neto, pernambucano como ele, dedicara uns versos. “Tem alguma coisa aqui que me pegou”, explica. Num dia do início de 2018, Ivan acordou com 35 graus em Recife e deitou-se com 9 graus no Porto.

Ivan Lima | © Paulo Meireles
Gilberto Gil e José Cid, Sheila e Sérgio Godinho
Chegou à Invicta sem um objeto firme de investigação, inclinado para a música dos países lusófonos de África, em particular Moçambique. “Conhecia pouco, mas tudo o que ouvia gostava”, diz. O orientador da FLUP pediu-lhe para refletir e deixou-lhe discos e livros de música africana, mas também de portuguesa. O doutorando estudara a ditadura salazarista e a Revolução dos Cravos, conhecia a Grândola, Vila Morena e algo mais do Zeca, mas foi o Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, primeiro disco de José Mário Branco, que lhe virou o foco. “Não, não, eu não quero falar sobre Moçambique, quero falar sobre isto!”, percebeu então.
Como antes investigara sobre os mecanismos de censura e de repressão da ditadura brasileira, bem como “a ação dos cantores para reverter esse quadro”, Ivan propôs-se a estudar a congénere portuguesa e a procurar relações durante a década em que ambas foram concomitantes: de 1964 a 1974. “Foram países com boas relações, então pensei que devia ter existido, além da conversa diplomática entre os governos, outra também entre os artistas”. Surpreendeu-se por aqui, ao contrário do ocorre no seu país, a música de intervenção (chamada “de protesto” no Brasil) não ser uma área em que abundem investigadores.

Disco autografado pelo teclista e volcalista da banda, José Cid | © Ivan Lima
Espantou-o também que muitos portugueses desconheçam a música nacional dos anos 70, sobretudo os jovens. Acredita que conhecem pouco além de José Afonso, e mesmo neste caso apenas “um fragmento da obra, que se resume ao Cantigas de Maio”. Lamenta que por cá haja “um revival” de nomes de culto da música brasileira e americana daquele tempo e que quase ninguém ouça, por exemplo, a Filarmónica Fraude, o Grupo de Baile ou, especialmente, o Quarteto 111, por quem mostra grande admiração: “sinceramente, em termos musicais, pouca coisa foi feita melhor que aquilo”. Do grupo, destaca o álbum de 1969, “um disco fantástico” do ponto de vista conceptual, que “tem um lado sobre a imigração e outro que sobre a questão racial”. “O álbum foi censurado – daí hoje ser tão raro – por causa da música Pigmentação”, diz, antes de a trautear com fascínio: “a pigmentação do negro é problema universal / a pigmentação do branco é problema mental”. “Praticamente nenhuma banda portuguesa teve o impacto dessa”, defende.
O seu vocalista, José Cid, deu em 2023 um concerto na Casa da Música dedicado a outro álbum, 10000 anos depois entre Vénus e Marte, “o melhor disco psicadélico do mundo”, segundo hiperboliza Ivan. Num breve encontro no final da atuação, o brasileiro pediu a Cid que autografasse edições raras dos dois discos: “mas como é que você tem isso?”, admirou-se o cantor.
Curiosamente, foi graças a Gilberto Gil que Lima descobriu a banda. Sabia que o ex-Ministro da Cultura brasileiro tinha coincidido com Zeca Afonso em Londres, durante o exílio, e numa entrevista para a tese perguntou-lhe qual “a sua maior referência na música portuguesa”. “O Quarteto 111”, respondeu Gil, que juntamente com Caetano Veloso passara uns dias em Portugal antes de rumar a Inglaterra. A dupla participou no Zip-Zip, célebre programa da RTP, e esteve em casa de José Cid, a tocar na “garagem onde surgiu o Quarteto do 111”. O investigador lembra ainda que, no seu primeiro disco a solo, em 71, Cid “gravou duas canções ligadas ao Brasil”: “a primeira versão do poema Gabriela Cravo e Canela, do Jorge Amado”, e a “Volkswagen Blues, de Gilberto Gil”. O baiano confessou-se agradado por falar sobre esse importante encontro e acabou por citar o historiador num espetáculo, enchendo-o de orgulho. “O José Cid é um personagem que, por mais controverso que seja, é uma figura central na música de contracultura” portuguesa, argumenta. “Apesar de não ser um cantor de esquerda, era um cantor contra o regime”.

Gilberto Gil, Sandra Gadelha, Caetano Veloso e josé Cid | © João Carlos Callixto
Outro dos nomes “esquecidos” que o académico aprecia é o de Shila, canadiana que foi esposa de Sérgio Godinho, “esteve presa com ele no Brasil, veio para Portugal, aprendeu português em cinco anos e gravou dois discos que ninguém conhece”. Um percurso que leva a conversa até à pandemia. Em 2020, Ivan voltou ao seu país e encontrou nos arquivos nacionais os processos que documentam as duas vezes em que Godinho lá foi preso (em 71 e 82). Material que Lima viria a entregar ao cantor – que “se emocionou” – e será usado num livro dedicado a esses episódios [como o músico adiantou numa entrevista à Agenda Porto no verão de 2025]. “Ele está usando os documentos para rememorar coisas, porque acho que a nossa mente acaba por ocultar aquilo que nos dói”, reflete o historiador. “Os documentos são incríveis, tem um que é do consulado de Moscovo”.



O “génio” José Mário Branco e Chico Buarque
Desde então que Ivan Lima mantém uma relação próxima com Sérgio Godinho, um dos muitos artistas dessa época que o historiador entrevistou para a sua tese e que o levam a preocupar-se com a falta de atenção dada “à riqueza da música portuguesa”: “grandes nomes ainda estão vivos e são completamente esquecidos – digo isso porque estive com a maioria deles”. Ermelinda Duarte, Francisco Fanhais ou Luís Cília são três dos muitos exemplos. Chegou até eles enviando emails: "venho de família pobre e não tinha contactos”.
Ivan não se limitou àqueles anos, porque “não se compreende a música dos 70 se não se compreende a dos 60”. Pensava colocar Zeca Afonso como marco inicial da pesquisa, por representar “um ponto de viragem”, mas sentiu a necessidade de ir até Giacometti, Lopes Graça e outros nomes, recuando até à década de 1910. “À medida que estudava, ia-me apaixonando”. Tentava também convencer amigos brasileiros a escutar os seus achados, mas para eles, “por não conhecerem os processos históricos”, aquela “música não tinha sentido”. A dificuldade não era apenas de contexto: “não entendem nada do que canta o Miguel Araújo, mas eu também não compreendia no começo”.

Francisco Fanhais, José Mário Branco e José Afonso | © DR
Em seis meses, Lima estudou “a república, a ditadura e a redemocratização portuguesa”. Para entender a construção do salazarismo, muito o ajudaram as canções, ainda que complexas. “As metáforas do Zeca não são fáceis para um português, imagina para um brasileiro”. Percebeu mais tarde que, além de recuar no tempo, tinha também de avançar, porque, “por exemplo, o Sérgio Godinho está produzindo até hoje” e o José Mário Branco passou a escrever para outros.
“Do ponto de vista musical, o meu favorito sempre foi o Zé Mário Branco”, confidencia Lima. “Acho-o um génio”. Lima esteve em casa do compositor três semanas antes da sua morte e acha que pode mesmo “ter sido a última entrevista dele.” Os 30 minutos previstos para a conversa estenderam-se por duas horas e meia, com a abertura e a gentileza do portuense a surpreenderem-no. Na obra de Branco, o historiador destaca a variedade de estilos e a “noção do impacto musical dos arranjos”, dando como exemplo a sua “ideia de fazer uma marcha” em Grândola, Vila Morena ou o início do disco Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, com sons de imigrantes a chegar à Gare d'Austerlitz, em Paris. “Ele tinha a noção de como o apelo musical podia potencializar a provocação política”, sublinha. “Estar com o Zé Mário talvez tenha sido meu grande momento de emoção aqui em Portugal”.
Na conversa com o autor de Inquietação, Ivan Lima percebeu também – tal como passara nos encontros com Cid, Godinho e outros – que ele adorava música brasileira. E ao abordar o assunto, José Mário confidenciou-lhe algo que o desapontava: no seu penúltimo disco de originais, Correspondências (1990), cada canção era uma carta para um destinatário diferente; uma delas, Sentido Único, dirigia-se a Chico Buarque, mas o cantautor questionava-se se o brasileiro alguma vez a escutara. Ivan, que achou “lindo” o disco, com “um envelope que dentro tem várias cartinhas, que são as letras das canções”, prometeu-lhe que faria “de tudo para o Chico conhecer isso”, mesmo achando improvável encontrar-se com o carioca.
José Mário Branco faleceu em 2019 e, quatro anos depois, Buarque atuou no Porto. Ivan não tinha bilhete, pois assistira ao concerto semanas antes no Brasil, mas foi para a porta do Coliseu com um exemplar do Correspondências. E ali viu Walter Hugo Mãe, de quem se tornara amigo por casualidade quando chegou ao Porto (antes de saber que era famoso). O escritor, que teria acesso ao camarim, não pôde levar Ivan, mas ouviu-lhe o pedido: “entrega isto ao manager e diz que é para o Chico ouvir, tem uma música para ele, e que leia essa carta”. Mais tarde, o investigador conseguiu um rápido encontro com o músico no hotel e “trouxe o disco de volta” [risos]. “Emociono-me quando falo nisto, porque fico pensando que cumpri o que o Zé Mário queria”.

Disco Correspondências, de José Mário Branco, e a sua carta-canção para Chico Buarque | © Ivan Lima
Os poemas, os convites e a música que ouve
Nas ligações entre portugueses e brasileiros, Lima encontrou também colaborações entre exilados em França: “o Zé Mário fez uma música com o Geraldo Vandré, o Luís Cília esteve com a Teca Calazans e o Chico Buarque queria gravar um compacto, quando saiu o Tanto Mar, com o José Afonso”. Achou ainda registos de uma atuação do Zeca num festival no Brasil, “um fracasso” porque, segundo Lima, os brasileiros entendiam ainda menos o português europeu nos anos 70 e porque o escalaram num horário desadequado. Ainda assim, salienta que o músico foi capa de revistas e esteve com figuras importantes, como o músico Jackson do Pandeiro.
Além destes cruzamentos, a pesquisa também salientou diferenças. “À exceção de cantautores como o Sérgio e o Zeca”, em Portugal “é muito comum a música de protesto ser um poema musicado”, diz, dando o exemplo de Trova do Vento que Passa, de Manuel Alegre, “gravado pela Amália, pelo Adriano Correia de Oliveira, mas também pelo Quarteto 1111!”. Este recurso era mais “raro” no Brasil, explica, e quem contrariou a tendência foi um português, o músico João Ricardo, integrante de outro grupo dos 70, os Secos & Molhados (que juntava ainda Ney Matogrosso e Gérson Conrad). São “um fenómeno no Brasil”, mas pouca gente sabe que foram “fundados por um português”, explica à Agenda Porto o historiador. “Por isso é que tem a canção O Vira e tanta referência portuguesa no primeiro disco, que é basicamente um disco de poemas musicados, metade das quais são do pai de João Ricardo, o poeta João Apolinário”, jornalista que combateu com versos (e não só) o salazarismo e foi musicado também por José Mário Branco ou Luís Cília antes de emigrar para o Brasil. “O filho, que foi para lá com nove anos, fundou depois o grupo mais meteórico da história do Brasil”, com uma formação original que durou menos de dois anos. “Todo mundo conhece os Secos & Molhados, com aquelas feições pintadas fantásticas, viraram um ícone da resistência”, garante Lima. “E o compositor de praticamente todas as músicas é um português”.
As ligações transatlânticas documentadas por Ivan seguiram pelos anos 80, como a relação dos Xutos & Pontapés com os Titãs ou a de Moraes Moreira com os Trovante. Entrevistou nomes dessa época, como a própria Teresa Salgueiro (o que invejaria a ex-namorada) e continuou a avançar no tempo. Ouviu quem na década de 90 se resistia a cantar em inglês, como os GNR, e também a vaga de projetos que no novo século resgataram a língua portuguesa para as canções. “Encantou-se” com o Variações – o próprio e o das versões dos Humanos (de David Fonseca, Manuela Azevedo e Camané) – e mais tarde com B Fachada, de quem tem a discografia completa. Conta até como o seu filho, de quatro anos, adora o disco B Fachada é pra meninos: “é uma figura que acho que não tem o relevo em Portugal que devia ter”.

Ivan Lima | © Paulo Meireles

Interior do disco B Fachada é pra meninos, com autógrafo | © Ivan Lima
Oito anos de estudo diário da música portuguesa colocaram o académico em contacto com muitos editores e músicos atuais, como Manuela Azevedo, Márcia, Ana Bacalhau ou Samuel Úria (“um cara que eu adoro e que multiplica o meu nome também”). E em paralelo, tem sido convidado para falar em diversos eventos sobre a música de intervenção. Nos 50 anos do 25 de Abril, por exemplo, esteve em universidades em Lyon e em Paris. Acha “que os portugueses são muito humildes”, mas admite que quando chega a uma dessas sessões nota algumas pessoas desconfiadas: “pensam ‘ah, quem é esse brasileiro que vem falar sobre música portuguesa?’”. Diz, no entanto, que acabam por ver que ele trabalha com “seriedade” e que sempre agrada “a pessoa que vem de fora e faz a validação ao que é nosso”. Afirma já ter visto gente mais velha emocionada e gosta de se sentir alguém que, “de certa maneira, difunde a cultura portuguesa”.
Lima tem também sido convidado para moderar conversas com artistas (como fez com Rui Reininho na última Feira do Livro do Porto) e para apresentar livros. Faz pesquisas sobre música portuguesa para meios brasileiros e leciona, no Instituto Pernambuco Porto, um curso de História do Brasil para filhos adolescentes de emigrantes brasileiros que vivem cá. Vai também publicando na página O Que Cresci Ouvindo, um podcast que criou na pandemia e em que divulga novidades musicais dos dois países, homenageia nomes da sua “memória afetiva” e partilha parte da sua investigação. Uma mistura de “lazer com trabalho”, explica.
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