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outubro 2026
Mariana Leite Soares (n. 1996, Porto) é dona de uma espécie de superpoder. Se vai na rua e ouve uma buzinadela em resposta a outra, sabe logo que a segunda tem um “intervalo harmónico de terceira maior” em relação à primeira. “Até estava a ter uma conversa, mas do nada ouço aquilo e não consigo não reparar”, descreve à Agenda Porto, referindo uma experiência comum a quem tem “conceitos de teoria musical e afinação”.
A criadora, cujo trabalho se situa entre música, som, teatro e performance, tem ouvido relativo, isto é, a capacidade de reconhecer sons, notas musicais, intervalos e acordes através da comparação com uma referência inicial. Começou a treiná-lo aos 10 anos na Academia de Música de Costa Cabral, onde ingressou para estudar clarinete. Dois anos antes, estimulada pela música a que era exposta pela família, tinha pedido aos pais uma guitarra pelo Natal.
“Não sabia que futuro queria tirar dali, mas fui percebendo de forma natural [que o caminho era esse]”, afirma. Concluído o curso profissional de instrumentista de sopros e percussão em clarinete, decidiu estudar Produção e Tecnologias da Música na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE). “Eu não queria seguir música clássica e, nessa altura, o meu passatempo era gravar músicas a tocar outros instrumentos que não o clarinete e cantar”, recorda.
Cedo percebeu que lhe dava gozo “meter as mãos nos vários elementos que compõem as camadas de uma música”. Mas, mais do que aprofundar uma paixão antiga, a ESMAE deu-lhe a descobrir uma nova — o teatro, território até então pouco explorado. “Conheci pessoas que me influenciaram muito e percebi que o que eu gostava mesmo era de fazer música para complementar performances e espetáculos.”
Essa vontade virou possibilidade no Teatro Universitário do Porto (TUP), no curso de Iniciação à Interpretação, onde encontrou uma “liberdade gigante para experimentar coisas”. “Foi o primeiro sítio onde percebi que não tinha de ser só sonoplasta ou técnica de som”, declara.

© Guilherme Costa Oliveira
A sua passagem pela companhia amadora mais antiga da cidade deu-lhe ferramentas para os desafios profissionais que surgiriam mais tarde. “De repente, estou a fazer som para uma cena em que uma intérprete está mais vulnerável e já consigo imaginar-me naquele lugar e perceber de outra forma o que é que ela pode precisar.”
Ao longo do seu percurso, Mariana Leite Soares trabalhou com artistas e estruturas como Ana Isabel Castro, Ana Rita Xavier, Cão Danado, Guilherme de Sousa & Pedro Azevedo, Joana Mont'Alverne, Joana Providência, Tânia Dinis e Teatro Experimental do Porto (TEP). Foi com este último que viveu uma das suas experiências profissionais mais marcantes: José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983 (2025), espetáculo multidisciplinar que reinterpreta os últimos concertos de Zeca Afonso e celebra o seu legado através do gig theatre — modelo que casa a energia de um concerto ao vivo e a narrativa teatral.
“Ser personagem-intérprete e ocupar em cena o lugar que seria o do José Afonso foi um desbloquear [de possibilidades], de pensar 'eu também posso fazer isto’”, reconhece a artista. Além de estar em palco na pele do cantautor português, assinou a direção musical e o desenho de som na criação de Gonçalo Amorim.
O som como elemento construtor da dramaturgia
Mariana Leite Soares concilia a atividade artística com trabalho como técnica de som, tendo colaborado com entidades como o Teatro Municipal do Porto, Teatro Nacional São João, mala voadora, Fundação de Serralves e Batalha Centro de Cinema. “[Essa experiência de bastidores] dá-me uma sensibilidade de escuta maior em relação ao que as pessoas à minha volta estão a tentar comunicar.”
Para Mariana, a imersão no pensamento e linguagem dos criadores com quem trabalha e a busca por sincronização com o seu contributo é a fase mais entusiasmante do processo. “Muitas vezes peço-lhes que descrevam a ambiência [pretendida] com adjetivos para tentar chegar à imaginação deles”, elabora.
Na sua perspetiva, o som não está apenas ao serviço da dramaturgia; pelo contrário, tem um papel ativo na sua construção. “O som não tem de ser triste só porque a cena é triste”, frisa. “Se a cena é triste, o som pode trazer memórias do que é que provocou aquela tristeza.” Esta componente pode também representar um contraste, nomeadamente “trazer uma energia diferente a uma cena triste”. “Dessa forma, há várias camadas e não é sempre o sublinhar de alguma coisa.”
A prática de Mariana Leite Soares abrange, ainda, a produção musical, tendo trabalhado com Inês Apenas e Basalto. Em 2025, lançou KÉLA, alter ego que resgata a exploração musical descomprometida e confessional da sua adolescência. Acostumada a criar música adequada aos gostos e necessidades de outras pessoas, Mariana encontra em KÉLA um “depósito de vontades” que não consegue encaixar noutros projetos. São canções de pop e eletrónica, com letras simples, que “caricaturam uma experiência de vida queer, neste caso lésbica”. Atualmente, o projeto está em stand-by e aguarda financiamento para prosseguir.
É no malabarismo de diversas funções e expressões artísticas que Mariana Leite Soares se sente confortável. Nunca se imaginou fechada num escritório das nove às cinco, nem numa caixa com o rótulo de uma profissão e/ou área de atuação. “Adoro poder fazer um pouco de tudo e, quando estou farta, ir beber a outro sítio e nem sequer fazer som”, admite a criadora, que tem também experiência em vídeo, produção, direção técnica, legendagem e desenho de luz.

© João Octávio Peixoto
Nomenclatura do material evoca questões de género
Todavia, é na música, e no seu ouvido relativo, que tudo começa, incluindo a sua primeira criação a título individual. ABSOLUTO parte do conceito de ouvido absoluto — a capacidade rara de uma pessoa ouvir um som e identificar ou reproduzir imediatamente a nota ou frequência associadas — para “trazer à luz as coincidências [sonoras] que existem à nossa volta e que nem toda a gente ouve”.
Embora tenha acesso a esta escuta de forma parcial, Mariana quis pensar o espetáculo a partir da lente de quem tem alcance total. “Para mim, isto já é um dado adquirido, por isso quis trazer esse fascínio a quem não o tem, apresentando-o no seu extremo.” Por outro lado, ABSOLUTO insere o público num contexto de montagem técnica, questionando a nomenclatura associada ao material, baseada na anatomia humana. “Estas fichas chamam-se fêmea e macho só porque os conectores penetram estes buracos”, concretiza.
Não sendo explícitas, as questões de género estão presentes e refletem as vivências de Mariana enquanto mulher num universo profissional dominado por homens. “Eu distraio-me em relação a isto [no dia a dia], mas depois tenho de pedir a alguém que chegue os machos e isso assombra-me”, relata. “No fundo, é perceber que o patriarcado vai até à designação do material.”
O machismo, sexismo e misoginia ainda habitam estes espaços de trabalho, de forma mais ou menos camuflada. “Noutro dia, uma técnica que conheço chegou a um teatro e a mesa de som tinha um papel a dizer ‘só para homens’”, ilustra Mariana. “Estas coisas ainda acontecem no comportamento humano e o próprio material, que foi nomeado por humanos, também espelha isso.”
ABSOLUTO foca-se, ainda, nas hierarquias e convenções do ensino e prática da música clássica, designadamente a formalidade e rigor excessivo incutidos desde tenra idade. “Ideias como ‘tens de passar cinco horas por dia, no mínimo, com o instrumento nas mãos, senão não obténs resultados’ não correspondem à verdade”, avalia. “Às vezes estudar duas horas e ir ver um concerto ou arejar é mais produtivo.” Até porque, frisa, é preciso “zelar pelo bem-estar do corpo”.
Segundo Mariana, "existem [neste meio] ideias muito conservadoras que não desaparecem”, como “os lugares de poder num grupo orquestral ou certos rituais a nível de vestuário”. “Houve um momento em que disseram que os meus sapatos se calhar não eram os melhores para a prova que ia fazer”, exemplifica.
Em setembro, Mariana Leite Soares foi consagrada com o Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II, que reconhece e apoia criadores da área do teatro até aos 30 anos. “[Este prémio] traz uma ansiedade e responsabilidades acrescidas, mas o meu foco continua igual — tentar criar um objeto que possa trazer uma escuta diferente para certas coisas e desconstruir convenções.”
A estreia de Mariana Leite Soares como autora é um “momento full circle” no Teatro Rivoli. Aos 16 anos, esteve no Grande Auditório como clarinetista para fazer um concerto com a sua escola de música. Ao longo do seu percurso, foi regressando para integrar produções apresentadas na instituição. Nos dias 23 e 24 de outubro, às 19h30, levará a cena ABSOLUTO no âmbito do Make Trouble, ciclo do Teatro Municipal do Porto que dá palco à experimentação e aos artistas emergentes, seguindo depois para o Theatro Circo, em Braga, a 30 de outubro.
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