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Holy Nothing abrem Porto Sounds Secret
Entrevistas
A banda portuense apresenta o novo álbum "Fascínio e Miragem" num concerto no dia 19 de abril
Holy Nothing abrem Porto Sounds Secret

abril 2026

Mais uma vez, a música vai brotar de locais inesperados com o regresso do Porto Sounds Secret, ciclo de concertos itinerante em que as salas de apresentação só são reveladas em cima da hora. Sob o tema Raízes, esta edição, que se estende até novembro, pretende ser "uma celebração das raízes culturais que nos definem, nos atravessam, nos conectam e reinventam num mundo cada vez mais global".


Os Holy Nothing, trio transatlântico que funde a música de dança e os ritmos quentes sul-americanos, fazem as honras de abertura com um concerto no dia 19 de abril, onde apresentarão o seu terceiro disco, Fascínio e Miragem. A Agenda Porto falou com Pedro Rodrigues (voz e guitarra), Nelson Silva (teclas) e Angelo B (voz e baixo) antes de subirem a palco num local a anunciar.

Agenda Porto (AP): Depois de Hypertext e Plural Real Animal, acabam de lançar Fascínio e Miragem. Em que é que o novo disco se aproxima e distancia dos anteriores?


Holy Nothing (HN):  Os quase 10 anos em que se inserem os nossos três discos foram sempre determinados por uma premissa central: a vontade constante de arriscar e forçar barreiras dentro das ténues fronteiras da música eletrónica. Se o Hypertext é uma experiência sónica que nos permitiu construir uma máquina indomável em palco, o Plural Real Animal abriu a porta para a ideia de criação musical em rede. Esse disco foi marcado por variadíssimas colaborações com produtores nacionais, por exemplo Moullinex ou Rui Maia, e artistas internacionais, como Barbatuques e BaianaSystem, assumindo-se claramente como tributo à pluralidade e globalidade cultural. Ou seja, um disco feito por muita gente, velhos e novos amigos, com backgrounds muito diversificados, que expandiu o conceito de multireferenciação do primeiro disco.


O Plural Real Animal determina o início da nossa progressiva aproximação artística ao hemisfério sul, sobretudo ao Brasil. Não só pelo facto da banda ter sofrido uma mudança estrutural após este disco, com a entrada do Angelo B para o baixo e voz, mas sobretudo pelo aprofundar das experiências musicais, pesquisas e conversas com vários desses novos amigos musicais. Recordo as inúmeras conversas com o Russo Passapusso (BaianaSystem) durante aqueles infindáveis confinamentos do COVID em 2020, que levaram à composição do primeiro esboço da Um Gole, música que faz parte do novo disco Fascínio e Miragem. Uma canção sobre a travessia pelo deserto que eram aqueles dias e que inicialmente escrevi em inglês, como todos os anteriores, mas naturalmente, pelo densificar da pesquisa, reescrevi em português, dando mais sentido ao que o Russo também estava a escrever do outro lado do oceano.


A grande inflexão do Fascínio e Miragem é essa: é o nosso primeiro disco inteiramente cantado em português, com a particularidade das músicas serem cantadas preponderantemente a duas vozes, com dois sotaques. É como uma viagem transoceânica que explora as relações de aproximação e afastamento, memória e esquecimento, reconhecimento e estranhamento mútuo entre Portugal e Brasil. Um trabalho que tem como base conceptual a relação social, cultural e histórica entre estes dois países, dando enfâse ao vasto território da lusofonia. Pareceu-nos bastante pertinente [ir nessa direção], considerando que vivemos num país cada vez mais multicultural, onde a língua portuguesa é um território de encontros e crescente miscigenação.


O conceito do disco surge das várias pesquisas que já tínhamos iniciado no anterior. É importante referir que o mote, o que “cola” conceptualmente o disco, é também a pesquisa sobre a obra do ensaísta Eduardo Lourenço. No livro Do Brasil: Fascínio e Miragem descobrimos algumas coordenadas para o aprofundamento da compreensão desta múltipla relação Portugal/Brasil, nas descrições da forma como os portugueses percecionam o Brasil, mas também como, do outro lado do oceano, Portugal é compreendido e significa (ou não) algo para a construção sociocultural do país. Uma relação entre o fascínio e a miragem, que vive do afastamento, esquecimento e fábulas.

 

O nosso disco é também uma homenagem a este e a tantos outros “embaixadores” desta relação cultural transoceânica que trilharam o caminho que agora percorremos. Essa ideia está não só plasmada nas 10 músicas do disco, como também nos vários elementos gráficos que o acompanham, desenvolvidos pelos portuenses Koiástudio.

AP: Quais foram os maiores desafios do processo de criação?


HN: No processo colaborativo que pautou o disco, o maior desafio foi, com certeza, a gestão do tempo e a distância: no primeiro caso, porque as trocas de ideias, as pesquisas e a gestão de agendas tornaram o processo um pouco mais moroso e, no segundo, porque uma parte considerável dos temas foi composta com músicos brasileiros a viver no Brasil. O processo compositivo era feito remotamente.


Contudo, este processo também permitiu solidificar as canções, pois revisitávamo-las à medida que o feedback surgia do outro lado do oceano, já com ouvidos frescos e maior certeza do caminho.


Por outro lado, a coerência conceptual do disco foi fácil de descobrir, porque as referências eram claras e muito determinantes. Os temas a abordar também. No final, o desafio foi, sobretudo, construir uma narrativa no disco que desse sentido à multidimensionalidade desta relação transoceânica.


A questão da preponderância das letras também foi muito determinante, porque, contrariamente aos discos anteriores, era importante despir a voz de efeitos e trazer a clareza do texto, da mensagem, para o primeiro plano. Essa nova dimensão das nossas canções foi um desafio interessante, quase visceral. A mensagem é mais dura e até crua, mas a forma de a produzir é mais suave e delicada.


AP: Um dos singles entretanto lançados foi Moeda de Troca, com Luca Argel. Que dimensão assumem as colaborações neste álbum?


HN: Este é um disco assumidamente colaborativo. Não poderia ser de outra forma, pois se a base conceptual dele é descobrir sentidos nesta relação, nesta ponte cultural entre Portugal e Brasil, teria que ser enriquecido com a perspetiva de quem está do outro lado do oceano, de quem vem de fora. As colaborações do disco foram sendo definidas de forma a permitir diferentes escalas de aproximação ao tema.


No caso do Luca Argel, trazendo a perspetiva da diáspora brasileira em Portugal, com a profundidade e peso da sua poesia. Já a Angélica Diniz, a voz feminina no disco e também ela cantora brasileira a viver em Portugal, indagando sobre o peso do deslocamento associado à imigração. E ,por fim, a perspetiva transoceânica, que fecha o ciclo compositivo do disco, com a pujança da orquestra de afrobeat paulistana Bixiga 70 ou os nossos velhos amigos BaianaSystem, em dois temas, Um Gole e Fascínio e Miragem, trazendo toda a força e energia do carnaval de Salvador.

Holy Nothing abrem Porto Sounds Secret

© Sebastião Guimarães

AP: Preparam-se para abrir o Porto Sounds Secret. O que é que o público pode esperar deste concerto?


HN: Estrear este disco na nossa cidade, num ciclo de concertos que tem por tema Raízes, não poderia fazer mais sentido para nós. Fascínio e Miragem é também a nossa procura por essas raízes, dos elos que nos unem. O público pode esperar um concerto com a energia que nos carateriza, em que não só iremos tocar as 10 músicas do disco na íntegra, como nos iremos apresentar em quarteto com um novo percussionista, o baiano Inuri Bispo. Para além disso, teremos alguns convidados especiais — alguns deles colaboraram no disco —, e uma pequena surpresa sobre a qual apenas podemos adiantar que é um cruzamento musical bastante inusitado. Mas o melhor é virem no dia 19 de abril! Vai ser divertido.

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