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Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”
Entrevistas
A cantora regressa ao Coliseu do Porto a 23 de janeiro para um espetáculo em torno de 'Inquieta', álbum lançado em 2025 com versões de seis temas de Zeca Afonso e ainda de "E Depois do Adeus" (Paulo de Carvalho), "Acordai" (Fernando Lopes Graça) e "Que Força é Essa" (Sérgio Godinho). Conversámos com ela sobre o disco e a sua ligação a estas e outras canções.
Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Janeiro 2026

AGENDA PORTO: Este álbum, lançado pouco depois dos 50 anos do 25 de Abril, é apenas um tributo musical ou é também um manifesto político? 


GISELA JOÃO: Até é mais do que isso. Quando eu canto é o único momento da vida em que sinto que me estou a conseguir explicar direito às pessoas, como é que sinto a vida, quem é que eu sou. E, na verdade, gostava de me estar a ver e a ouvir quando estou a cantar, porque talvez me ajudasse a entender-me melhor. Por isso, não digo que é só um manifesto político. Vou dar uma imagem do que sinto: sabes quando estás a ver notícias e depois desligas e encontras um amigo e ele diz-te “pá, tu viste aquilo que aconteceu…”, e parece que o teu balão vai enchendo e de repente só te apetece dar um grito? As letras destes cantautores, estas melodias, ajudaram-me a sentir que consegui, de alguma forma, posicionar-me em relação à vida, em relação ao mundo. Nós estamos todos muito cansados de tudo aquilo que acontece. Acho que é impossível as pessoas não estarem exaustas, tanto que há muitas que preferem – nem é preferem, não têm escolha – viver mais anestesiadas para se tentar defender. Eu entendo isso, também. O disco veio dessa vontade de me posicionar, de sentir que, de forma até meio egoísta, também tenho alguma coisa a dizer.

Portanto, além da ligação óbvia à canção do Zé Mário Branco, essa inquietação está ligada aos teus fantasmas pessoais mas também a um sentimento sobre o nosso caminho coletivo… 


Sim, claro, as minhas inquietações vêm de todo o lado, não vivo fechada numa redoma, vivo em relação com o outro, com o mundo. E tudo aquilo que acontece à minha volta deixa-me ainda mais inquieta a toda a hora. Sei que é um bocado cliché esta coisa de se dizer “já viste isto? Parece que foi escrito hoje!”, mas acho que a boa poesia, os bons textos, a boa escrita têm essa capacidade de viver no tempo e de nos fazer pensar “isto é exatamente o que eu estou a sentir” ou “era mesmo isto o que eu queria dizer”. Então, só tenho a agradecer às pessoas que escreveram estes textos, estas músicas, porque me ajudam. E outra coisa: quando estava a preparar este alinhamento – porque isto era para ser um concerto e não um disco –, ia percebendo que estas músicas estão diluídas, estão muito desaparecidas, só te cruzas com elas se as fores procurar mesmo. E é muito importante este cancioneiro estar vivo e de boa saúde. Se, por exemplo, vais no carro ou a caminhar e ouves uma música destas, essa viagem, que se calhar tem três minutos, e no meio do teu dia é apenas uma ida ao supermercado, pode-te ajudar também a posicionares-te ou a perceber o que sentes, e talvez seja um ponto de partida para te pôr a pensar sobre as coisas que tu apenas consomes enquanto estás no meio da espuma a tentar bracejar para não te afogares. Eu sentiria 'missão cumprida' se alguém me dissesse: “olha, no outro dia ouvi-te um bocadinho a cantar aquela música do Zeca ou aquela música do Sérgio e de repente dei para mim a pensar sobre estas coisas todas que andam aqui a acontecer”. Quando as pessoas têm tempo para pensar, têm tempo para se posicionar e para falar e discutir abertamente. Só com muita discussão é que é possível chegar-se a algum lugar. 


Na canção "Que Força é Essa", em vez da letra original do Sérgio Godinho, optaste pela versão mais recente da Capicua, que tem um ângulo mais feminino e sobretudo mais feminista. Foi também para fazer pensar nesse sentido que acabas de descrever? 

Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Gisela João no festival Caixa Alfama, em setembro de 2025 | ©Estelle Valente


Foi, claramente. E para ter uma mulher no meio de todas as músicas que gravei. Quando a Ana [Capicua] lançou essa música no ano anterior, no Dia da Mulher, eu fiquei tola, pensei “isto é mesmo fixe”. Desde o início, queria que a capa do disco fosse só a minha cara com um olhar meio desafiador e com o feminino representado, e acho alguma graça a ser uma mulher a cantar a Liberdade, já que as mulheres não tinham liberdade nenhuma. Mas não me bastava ter só a mim a representar as mulheres, precisava de mais. E a letra da Ana é incrível. Já disse isto muitas vezes, eu sou uma fanzaça da Ana, acho que escreve incrivelmente bem, é como se fosse uma máquina para onde eu mando os meus pensamentos, falo, falo e falo, e depois ela tritura aquilo e sai tudo muito bem estruturado. Nessa versão há uma parte que me fascina, em que ela escreve “que força é essa, amiga, que te faz levar o mundo todo na barriga?”. Eu apaixono-me por frases, e essa é um murro no estômago. Porque, de facto, literalmente, a mulher traz o mundo todo na barriga. Homens e mulheres saem de barrigas de mulheres.


Nessa escolha também pensaste na tua mãe? Numa entrevista recente dizias que ela trabalhava todo o dia e ao chegar a casa ainda tinha de cozinhar para sete [Gisela é a mais velha de sete irmãos]. 


Pensei, claro. Mas pensei em todas as mulheres. Porque mesmo as que de forma muito segura dizem que não querem filhos têm esse poder na barriga. Acho a imagem belíssima, muito forte, muito densa. Perante qualquer pessoa que tenha aquelas conversas mais estranhas, de “não, nós não somos iguais, as mulheres não deviam estar a pedir isto ou aquilo”, essa frase acaba logo com qualquer tipo de discussão. Porque é assim: de onde é que tu vieste? 


É como uma sentença…


Sim. E também tinha de ter ali a Ana. Gosto da ideia de continuidade, de trabalhar com as pessoas com quem sempre trabalhei. Tenho aquela ideia romântica de que vamos ser velhinhas e [saberemos que] fomos fazendo estas coisas, que temos uma história no nosso percurso além da amizade, uma história profissional em conjunto. Acho isso bonito.


Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Gisela João no festival Caixa Alfama, em setembro de 2025 | ©Estelle Valente

Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Gisela João no festival Caixa Alfama, em setembro de 2025 | ©Estelle Valente

Tu nasceste nos anos 80, ou seja, mais de 10 anos depois da gravação destas canções. Como é que te ligaste a elas? 


Acho que posso dizer que na minha geração estas músicas estavam muito presentes, graças aos nossos pais, tios, vizinhos, à televisão…. Estavam presentes na minha vida desde muito pequena, ouvia-se em casa. Lembro-me de estar no carro do meu tio Queirós e da minha tia Té, de irmos para o rio e estar a tocar o Zeca Afonso. Éramos putos e íamos a cantar. 


E ao fado, como é que foi a ligação? 


O fado já é outra coisa…


… porque, curiosamente, tu vens de Barcelos, de uma terra e de uma geração de onde saíram muitas bandas de rock, o festival Milhões de Festa…


Barcelos é um grande hub criativo da música. Só tenho pena de que quem manda nunca tenha percebido isso e tenha até tentado tolher essa criatividade toda. Acho que é a cidade no país que tem mais artistas por metro quadrado. Há muitos artesãos, muita arte, música - sempre houve muita música. Até, voltando atrás, na minha cidade ouvia-se muito essas músicas [de intervenção] em concertos, na rua, nas lojas. É uma cidade que sempre teve muita consciência. Agora, o fado é uma história completamente diferente. Eu ouvi a Amália cantar na rádio e sozinha fui descobrindo: percebi que gostava mesmo muito daquilo, parecia que aquela senhora estava a cantar as minhas histórias. Apaixonei-me e fui procurando. Havia uma discoteca, como se chamava antigamente às lojas que vendiam cassetes e CD, e eu ia lá olhar para as coisas e ouvir música. O senhor chegou-me a gravar uma cassete com fados... Eu sempre fui um bocado estranha, nunca fui muito consensual ou de ter um grupo de amigos e ponto. Sempre conheci muitas pessoas, sempre tive muitos amigos com ideias diferentes, mas os primeiros dez anos a consumir fado foi um caminho muito solitário. Era um lugar onde, para mim, eu conseguia fazer sentido. Ouvia a Amália cantar, o Camané, e conseguia fazer sentido para mim própria, porque tudo à minha volta me dizia que eu era um bocado esquisita – a forma como me vestia, a forma como me posicionava, as coisas de que gostava de fazer. Então, aprendi a viver com essa falta de consensualidade e comecei a aceitar-me por causa do fado, a verdade é essa.

Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Gisela João no festival Caixa Alfama, em setembro de 2025 | ©Estelle Valente



Depois vieste para o Porto estudar design de moda…

Sim, mas não cheguei a estudar. Fui para o Porto porque queria ir para o antigo Citex, mas tinha de trabalhar. E na altura das inscrições, não consegui ter tempo para estudar, trabalhar e cantar nas casas de fado. Precisava de ganhar dinheiro, porque isto é tudo muito bonito, mas no fim do dia precisamos de pagar as contas e pôr comida na mesa. Durante muitos anos, mas muitos mesmo, olhava para esse momento da minha vida como um ato falhado. É claro que podia ter estado a trabalhar e a fazer o curso e a cantar, há tanta gente que tem dois trabalhos e três. Mas já fiz as pazes com isso, porque nem todos temos a energia suficiente no exato momento em que precisamos. Eu não consegui fazer tudo ao mesmo tempo, mas o que eu já fiz já foi muito bom, já foi muito. 


Quanto tempo durou essa etapa? 


Hum, acho que fui para o Porto em 2005 e fiquei até 2010.


E cantavas numa casa da Ribeira, ou em mais sítios?


Comecei a cantar no Fado, que ainda existe ali no Largo de São João Novo – recomendo, comida super-boa –, com o senhor Artur, que já cá não está. Foi um grande amigo, uma pessoa muito importante, que apareceu na hora certa. Depois, também ia cantar ao Malcriado, na Ribeira. E, como em qualquer área profissional, fui conhecendo, trocando ideias, e depois um músico convidava-me para cantar numa coletividade, outro numa festa, e pronto. Quando se entra no mercado de trabalho – acho que é assim para toda a gente –, se estiveres disposto, as oportunidades vão aparecendo. Uma vez, disseram-me uma coisa que nunca esqueci, porque funciona: “o cavalo da sorte passa uma vez à nossa frente, à segunda já vai montado”. Isto é mesmo verdade. As oportunidades aparecem, temos de conseguir reconhecê-las, estar disponíveis e sem medo.


Foi aí, nessa procura, nessa disponibilidade, que percebeste que o fado ia ter tanto peso na tua vida? Ou foi só quando foste para Lisboa? 


Se falarmos no peso emocional, no lado catártico que o fado sempre me deu, desde novinha foi muito claro que este género era uma coisa com peso na minha vida. 


E em termos profissionais? 


Não, nem de longe. Achava que cantar ia ser um hobby. Assim como há pessoas que gostam de jogar a bola uma vez por semana ou outras que gostam de cantar num coro. Achava que ia ter a minha profissão, tinha aquela mentalidade que muitos pais e avós tinham de “então e um trabalho a sério?”. As artes eram uma coisa muito distante, isso estava enraizado em mim, não achava que fosse possível, sequer. Lembro-me que um amigo, o Ivo, estava constantemente a dizer que eu devia ir para Lisboa. Eu ria-me e dizia-lhe: “estás tolo? Estão lá os [cantores] famosos todos, vou para Lisboa fazer o quê?”. 


Achas que o fado, em termos de identidade, é só de Lisboa ou é algo nacional?


Nacional. 


Mas tu estás no grupo das exceções, porque a maior parte dos principais fadistas nasceram ou cresceram na zona de Lisboa… 


Há fadistas que foram importantes, mesmo muito importantes – e músicos também – que eram do Norte e muita gente não sabe. O Tony de Matos, a Maria da Fé, a Beatriz da Conceição eram do Porto. E não podes falar da história do fado sem falar destas pessoas, por exemplo. Só que precisaram de ir para Lisboa, como eu. Acho o fado uma representação quase perfeita do coração, da emoção e da forma de sentir dos portugueses. Acho que está aí nesse lugar, e é por isso que é de todos. Um português que vive fora de Portugal sente o fado de uma forma que as outras pessoas não sentem. Em Lisboa, havia mais casas de fado, havia mais tascas, havia mais fado a borbulhar a toda a hora; no entanto, não acho que seja música de Lisboa, acho mesmo que é de todos os portugueses. Agora, como em muitas coisas, infelizmente, é preciso ir para a cidade grande para as oportunidades acontecerem e para o caminho se começar a fazer.

Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Gisela João no festival Caixa Alfama, em setembro de 2025 | ©Estelle Valente

Neste disco há pianos, há guitarras elétricas distorcidas, há sons mais experimentais (como os de vassouras a varrer e baldes de água a serem despejados). Quando compões sentes-te sempre com um pé no fado ou antes de mais sentes-te cantora e compositora? 


Neste caso, não sou compositora, nestas músicas estou apenas a fazer arranjos…


… sim, mas, e em termos mais gerais?


… em termos de produção, acho que o fado está em tudo o que faço, até no que escolho para fazer o jantar. Acho que é muito mais uma forma de se ver a vida do que propriamente o xaile, a guitarra portuguesa ou a indumentária preta. O fado está na forma como olho para a vida, mas é sempre muito importante para mim evitar afadistar o que faço só porque sim, não gosto de coisas que são feitas para soar a algo. As coisas têm que ser o que precisarem de ser, honestamente, e são interessantes se forem feitas dessa forma. Por exemplo, aquele som da vassoura [na canção Que Força é Essa] era-me necessário, porque quando olho para aquele poema, penso é no trabalho físico que as mulheres têm, que desgasta tanto, e em todo o trabalho intelectual que têm. Logo no início – “vi-te a trabalhar o dia inteiro / a limpar a cidade dos homens” –, imaginei a quantidade de mulheres que nós vemos a varrer as entradas da porta, as casas, os escritórios. Pensei nessa imagem – a minha mãe de vassoura à minha frente, a minha avó de vassoura, eu de vassoura desde pequenina – e esse som tinha que estar ali. O meu ponto de partida são sempre os poemas, a história que estou a contar, o que é que ela precisa. 


Em janeiro regressas ao Coliseu. O espetáculo vai girar em torno ao disco?


Ei! Não é um coliseu qualquer, é o Coliseu do Porto [risos]. Não sou do Porto, mas tenho uma costela no Porto, foi onde me fiz mulher, onde cresci, onde me apanhei sozinha. E vou fazer o Coliseu do Porto porque os meus primeiros concertos grandes são sempre no Norte, precisamente para descentralizar essa ideia de que tem de se ir sempre para a capital.

Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Gisela João no festival Caixa Alfama, em setembro de 2025 | ©Estelle Valente

Depois voltas cá em junho, para o Primavera Sound. 


Sim.


Como achas que o fado se enquadra nesse tipo de festivais, mais ligados ao pop-rock e a géneros urbanos? 


Vou repetir aquela máxima que acho que é mesmo verdade: o fado está em tudo o que eu faço. Não quer dizer que a minha música tenha obrigatoriamente guitarra portuguesa, não quer dizer que eu vá cantar as músicas que as pessoas acham que é fado. Nem eu sei muito bem o que é o fado! Defendo-me dizendo que é muito mais a forma como se vive. Agora, musicalmente, não sei se o que vou fazer no Primavera Sound corresponde à ideia que a maior parte das pessoas têm de um concerto de fado. 


Vais ainda ao Primavera Sound de Barcelona. Como vês o momento atual do fado no contexto internacional? Por exemplo, o que achas da recente colaboração da Carminho com a Rosalía?

Gisela João: “comecei a aceitar-me por causa do fado”

Gisela João no festival Caixa Alfama, em setembro de 2025 | ©Estelle Valente

Acho que todo o tipo de colaborações são muito importantes. Pessoalmente, não me apaixono por artistas que não experimentem, que fiquem sempre num lugar seguro. Acho que com a troca e com a experimentação é que se consegue crescer intelectualmente, musicalmente, em tudo. Todo o tipo de experimentação é sempre bem-vindo, bato sempre palmas. 


Já atuaste em muitos países e para 2026 tens agendados vários concertos no exterior. Tens alguma história curiosa sobre como foste recebida, fora da comunidade portuguesa?


Na verdade, não me lembro de ter feito uma coisa focada na comunidade portuguesa, mas é claro que aparecem sempre portugueses. E quando damos um abraço, um beijinho ou trocamos umas palavras, sinto que parece que eles estão a matar saudades de Portugal. É como se... 


…como se fosses deles… 


Sim, sim, e acho isso super-fixe. Agora, histórias castiças, tenho tantas… Uma vez, num festival ao ar livre, acho que era em Zaragoza, estava muito calor e aquilo era um jardim imenso, muito bonito. Estava toda a gente a testar o som, e eu saí do recinto, fui dar uma voltinha pelo jardim e não tinha nada comigo, nem telemóvel, nem credencial, nada. E quando vou para tentar entrar, o segurança não me deixou e eu não sabia o que fazer [risos], porque não podia comunicar com ninguém…


Não disseste que eras quem ia atuar? [risos]


Sim, eu dizia “sou eu que vou cantar” [risos], e ele ficava a olhar muito sério, alto profissional, nem me dava conversa. Fiquei sentada num banquito, à espera, até que passou alguém da minha equipa e me perguntou o que estava ali a fazer. Acabou tudo a rir, porque já andavam à minha procura.

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