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Fevereiro 2026
Dezasseis meses e várias salas cheias depois, a adaptação que Maria João Vicente fez do clássico de Camilo Castelo Branco está de regresso à cidade. E se alguém que esteve nas récitas anteriores voltar ao Teatro Carlos Alberto, não se espante se vir coisas novas: é que se a peça se mantém igual, os espectadores talvez não.
É com esta ideia que começa a sinopse do espetáculo: “Sempre que regressamos a este texto, tudo é novo”. A criadora portuense explica-nos que tal se passa aqui “como com qualquer obra de arte” – por exemplo quando “olhamos para um quadro que já vimos muitas vezes” –, pois entre o ver e o rever “nós mudamos”.

Maria João Vicente © Teatro do Bolhão
Nas releituras para a preparação deste projeto, surgido de um convite do Teatro Nacional de São João e do Teatro do Bolhão, “numa altura em que comemorávamos os 200 anos do nascimento do Camilo”, a própria encenadora experimentou o fenómeno.
Ao ver o texto “à luz também, por exemplo, de uma nova visão da mulher”, prendeu-a “de repente, a desobediência”, ou melhor, “a importância da desobediência como categoria filosófica e política da nossa vida”. Um traço que, materializado na personagem de Teresa, “uma mulher que diz não”, “foi algo que se calhar nas primeiras leituras, ou nas anteriores, não tinha ficado tão presente”.
No primeiro contacto com o romance, Maria João admite ter-se “ligado mais ao drama destes dois jovens e deste amor impossível”, uma história que, na sua opinião, continua a proporcionar “um diálogo profundo e produtivo com aquilo que nos acontece a nós hoje”. Ainda que “a linguagem possa ser diferente e que a ideia de morrer de amor não nos pareça eventualmente tão plausível”, ressalva.
“Continua a comover-nos”, diz, tanto pelo enredo como pela “própria forma”, e “a maneira como nós entramos no livro é, também, através das palavras, dessa música”.

© TUNA/TNSJ
Um choro racional como premonição
Segundo o próprio Castelo Branco, Amor de Perdição foi escrito em apenas duas semanas, enquanto o escritor cumpria pena na antiga Cadeia da Relação, no Porto, devido ao célebre caso de adultério com Ana Plácido. Essa vertigem, sentida na narrativa e também nesta adaptação teatral – sem transições muito visíveis entre cenas –, talvez ajude no vínculo com um presente feito de correrias.
Para Maria João Vicente, essa voragem, própria também da paixão, “talvez nos envolva de uma forma emocionalmente mais intensa”, pois aqui estabelece-se “uma relação com o leitor que não é só de ordem intelectual ou racional, é uma ligação emocional”. E recorda a curiosa frase que, em 1879, o autor deixou no prefácio de uma das reedições: “Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de Perdição quase esgotada”.
A encenadora, para quem “a obra chegou” aos nossos dias “absolutamente atual”, quer ajudar a cumprir o desejo do escritor: “ele gostaria que as pessoas continuassem a poder chorar, mas apela à ideia da emoção e da razão em simultâneo”.
Camilo incluiu na narrativa comentários à sua época, “quer do ponto de vista literário e artístico, quer do ponto de vista político” ou questões “sobre a natureza da própria arte”, o que também está refletido na peça. “No romance existem várias camadas que nós tentamos manter”, revela Maria João, uma preocupação “sempre muito presente” no trabalho desenvolvido com Constança Carvalho Homem, que adaptou o texto.

© TUNA/TNSJ
Estudantes entre a plateia e ex-alunos no palco
Com uma longa carreira como atriz e encenadora, incluindo 28 anos como integrante do Teatro da Garagem, em Lisboa, Maria João Vicente considera que pode atrair mais leitores para esta “obra maior da literatura portuguesa”: “o teatro é uma maneira diferente de sensibilizar as pessoas e de fazer com que tenham vontade de ler o próprio livro”.
Entre o público voltarão a estar muitos adolescentes, já que o romance integra o programa curricular do ensino secundário. A portuense adverte, porém, que a “peça é para toda a gente” e que não foi concebida a pensar nos mais jovens. A transformação do texto num espetáculo de hora e meia exigiu, obviamente, a omissão ou a adaptação de cenas para que se entendesse a narrativa, mas houve sempre fidelidade às palavras: “quisemos manter a linguagem camiliana que é uma linguagem muito potente e, do ponto de visto artístico, riquíssima”.
Vicente explica que “foi muito interessante” o trabalho feito com “uma equipa que funcionou como equipa”, em que “toda a gente pôde contribuir com o seu diálogo particular estabelecido com a obra”, desde os responsáveis pela luz, a cenografia e os figurinos até aos atores.
Os produtores da peça quiseram que os intérpretes fossem do Porto, tanto por motivos logísticos, como para fomentar o emprego entre os profissionais do setor na cidade. “Foram muitas pessoas às audições – fiquei até muito surpreendida com isso –, muitas, muitas pessoas”, conta a encenadora, antes de revelar que para a seleção pensou “não tanto nos papéis individualmente, mas no grupo de trabalho” a criar. E para isso terá ajudado ver muitas caras conhecidas.
Do elenco da peça – em que se destacam Vicente Gil, Leonor Reis e Mariana Sevila, respetivamente nos papéis de Simão Botelho, Teresa de Albuquerque e Mariana – apenas três atores não foram alunos de Maria João. O seu percurso como docente começou no início dos anos 90 na Academia Contemporânea do Espetáculo (Teatro do Bolhão) e desenvolve-se há mais de duas décadas na Escola Superior de Teatro, em Lisboa. “É um prazer, passados alguns anos, trabalharmos com os nossos ex-alunos e ex-alunas como colegas, é muito gratificante”, confidencia com “um certo orgulho” à Agenda Porto.

© TUNA/TNSJ
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