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maio de 2026
Musicólogo, pedagogo e diretor artístico da companhia Musicalmente, Paulo Lameiro tem mais de 30 anos de experiência em projetos de educação e produção artística para a primeira infância, de que são exemplos o programa de formação Músicos de Fraldas e os Concertos para Bebés. Presença assídua na Casa da Música nos últimos anos, volta à sala portuense no dia 9 de maio com O Bebé Compositor, uma formação que recorre à IA para pôr os próprios bebés a "compor".
O que o motivou a trabalhar com um público tão jovem?
Os bebés entraram na minha vida por uma circunstância pessoal. Eu estudei Música e toquei numa banda filarmónica em Leiria e, na altura, só havia escolas de música no Porto e em Lisboa. Eu pensava que só se podia entrar para o conservatório aos 18 anos. Com essa idade, fui para Lisboa para tocar trompete e não entrei, porque era muito velho comparado com os meus concorrentes mais distantes.
E, como não entrei, tomei a decisão de fazer na minha banda e na minha aldeia, em Pousos, um projeto onde se pudesse começar a estudar muito mais cedo. A loucura dos 18 anos fez com que eu tivesse criado, em 1992, aquilo que era o Berço das Artes. Não era só música, tinha música, teatro, dança, cinema… era uma espécie de school of arts que começava com bebés.
Mas, em 1992, eu não sabia nada sobre bebés. Depois, há um segundo marco muito importante na minha vida, em 1995, que tem que ver com a vinda a Portugal, pela primeira vez, do professor Edwin Gordon, que é uma referência. Ele fez com que eu percebesse que não só era possível, mas fundamental trabalhar com bebés, porque todas as pessoas com bebés têm de ter consciência do impacto daquilo que fazem musicalmente com eles.
No ano seguinte, em 1996, nasce o Músicos de Fraldas, um programa de formação [para profissionais no âmbito do ensino artístico para a primeira infância] que tenho feito um pouco por todo o lado e, em 1998, surgem os Concertos para Bebés.
Como é que o trabalho com bebés marcou o seu percurso?
Costumo dizer que os bebés são os maiores especialistas a aprender. Por norma, é no final da vida que nós sabemos o que importa aprender verdadeiramente. Todos nós, quando temos um bebé nas mãos, estamos num momento da vida mais disponíveis para os outros, para ter uma relação verdadeiramente desinteressada por alguém e fazer o futuro. E esta competência, que todos nós, seres humanos, desenvolvemos, o sermos solidários uns com os outros, vem deste trabalho com bebés. Os bebés continuam a ser importantes na minha vida, na minha atividade profissional, mesmo quando eu trabalho noutros projetos, porque é deles que vêm as competências para estarmos abertos aos outros, e usar linguagens não verbais e ferramentas que só com o os bebés nós conseguimos desenvolver.
Que projetos desenvolve atualmente?
Temos os Concertos para Bebés, um projeto que procura oferecer não uma iniciação à música nem uma pedagogia para que, mais tarde, estes seres humanos pequeninos possam vir a desfrutar verdadeiramente da música, mas uma imersão na experiência musical para eles, que são pessoas aqui e agora. É uma experiência que não encontramos num outro concerto, nem camerístico, nem sinfónico, mais popular ou mais tradicional. Este compromisso entre ter a chamada música clássica, com Monteverdi, Bach, Mozart, Stravinsky, Messiaen, no mesmo concerto, e uma relação de muita proximidade entre os artistas e os bebés, é realmente extraordinário.
Na verdade, o público assiste aos concertos fascinado pela reação dos bebés, não pela reação dos músicos ou pela música que nós fazemos. É por isso que existe um número crescente de adultos sem bebés que vão a concertos para bebés. Tivemos de abrir a bilheteira para isso, porque ir a um concerto para bebés não é só levar o nosso filho a um concerto. Para uns, é um ritual de cura, nas palavras dos próprios pais, para outros, é a tal imersão numa experiência musical diferente.
Este projeto tem vindo a crescer muito pelo facto de haver uma companhia que se dedica a ele há quase 30 anos, a Musicalmente. Temos vindo a desenvolver um modelo de concerto que tem sido replicado em vários pontos da Europa e no Brasil. Em Portugal, estamos mensalmente em salas de Coimbra, Leiria e Sintra e, depois, estamos noutras cidades, como o Porto, onde estivemos durante 10 anos, todos os meses. Também temos alguma programação na Europa e, às vezes, fora da Europa.

Musicalmente © Joaquim Dâmaso
Qual é a estrutura e o repertório dos vossos concertos?
O nosso modelo é semelhante ao de uma orquestra clássica, mas em vez de termos um programa semanal, temos 11 programas ao longo do ano, que são escolhidos com base em determinados critérios. Metade é repertório clássico, da música antiga à música contemporânea, e a outra metade é distribuída por aquilo que é a nossa cultura musical em Portugal. Ou seja, há música tradicional, world, jazz, eletrónica, independente… há diferentes gramáticas musicais ao longo de cada temporada. A nossa equipa tem sete artistas, mas como queremos oferecer música de qualidade aos bebés, convidamos, regularmente, intérpretes que trazem o que de melhor se faz noutros géneros musicais.
Para mim, o foco destes concertos é sempre a música, a catarse da experiência musical. Todo o teatro que está à volta e a dimensão visual e plástica são, verdadeiramente, secundárias, estão ao serviço da música. Às vezes até se lhe sobrepõem, mas eu acredito mesmo é no poder da arquitetura sonora e na componente mais fisiológica e vibratória da música.
"Não há música infantil nos Concertos para Bebés. Os músicos tocam o repertório mais importante para eles, do mais arrojado e contemporâneo que há."
Que caraterísticas deve ter a música para bebés?
A melhor música para tocar para bebés é a música de que se gosta mais, porque o bebé ouve essencialmente uma boa relação com a música. Nós somos pessoas diferentes quando tocamos alguma coisa de que gostamos imenso ou quando tocamos alguma coisa que precisamos de tocar. Não há música infantil nos Concertos para Bebés. Os músicos tocam o repertório mais importante para eles, do mais arrojado e contemporâneo que há.
Claro que os bebés não podem ouvir como adultos, por isso é preciso selecionar as durações dos excertos. A tetralogia de Wagner ou uma sinfonia de Mahler não podem ser dadas a bebés. Os bebés podem ouvir 10 a 30 segundos de música. Aos 45, já não estão a ouvir nada e 2% já estão a fazer outra coisa. Portanto, nós temos que cuidar aquilo que é importante para o bebé: a duração, as intensidades, as proximidades, as repetições, as diversidades…
Quando se pergunta “Há música melhor para bebés do que outra? Há compositores melhores do que outros?”, o que eu sei é que há alguns compositores e repertórios com os quais os bebés ficam mais concentrados, o que não quer dizer que seja melhor para bebés, quer dizer que ficam mais tempo concentrados. Por exemplo, a música barroca, na generalidade, é melhor do que a música romântica, porque é feita em andamentos mais curtos. As composições de Stravinsky têm mais contrastes do que as de Mozart, por isso mantêm os bebés mais concentrados. Mas há bebés que preferem ouvir Mozart a Stravinsky.
Não há bebés, há Marias e Manéis. É igual a perguntar “Qual é a melhor música para quarentões?”. Cada um tem as suas preferências. Isso nota-se muito quando os bebés já gatinham. Há uns que permanecem no colo das mães o tempo todo e outros que vão ao encontro dos músicos. As mães dos que vão ao encontro dos músicos ficam felizes e acham que o bebé adora música. As mães dos que permanecem no colo ficam tristes. É um tremendo erro, porque esquecem-se que o bebé está ao colo está a contemplar, é sensível, está fascinado com o que está a ver. O outro pode só estar a ver o atacador do músico.
Além dos benefícios conhecidos pela ciência, qual o impacto do contacto precoce com a música?
São muitas as camadas [de impacto] que resultam de um bebé ir a um concerto. Os nossos concertos são desenhados para os bebés contemplarem privilegiadamente; se as pessoas vão à espera de muita animação e interação, vão ficar desapontadas. Primeiro, ir a um concerto é tão importante para bebés como é para todos nós ir a um concerto, uma exposição ou ver um por do sol. Ele vai fruir aquele momento, vai sentir algo e descobrir dele coisas novas que só a exposição à arte permite. Ele vai estar sujeito à catarse estética como qualquer ser humano. Depois, os pais que vão com ele descobrem que aquele ser pequenino que têm lá em casa consegue estar durante 45 minutos a ver e a ouvir [alguma coisa] em silêncio, sem se mexer, como costuma fazer. Os pais passam a olhar para o bebé de outra forma. Há uma predisposição para uma outra dimensão da relação. Até porque não é comum os pais poderem estar com outros pais e bebés a olhar uns para os outros. Além disso, as famílias passam a ouvir mais música clássica e põem mais os filhos a estudar Música em conservatórios. E não fazem cara feia se as provas ditarem que, em vez de harpa, piano, guitarra, ou bateria, eles devem escolher fagote ou oboé.
No dia 9, apresenta O Bebé Compositor na Casa da Música. O que nos pode desvendar?
Esse segundo projeto nasceu dentro dos Concertos para Bebés. Os bebés têm vindo a revelar-se tanto nos concertos, que quisemos pensar numa fórmula para eles terem um protagonismo maior. Pensámos que o bebé poderia ser o próprio compositor das músicas que vamos ouvir. Por isso, estamos há três anos a desenhar um modelo com um consórcio europeu, em que vamos ter os bebés a ouvir a mesma música, Bach e Mozart, mas eles vão ter sensores no corpo. Esses aparelhos vão ler as reações dos bebés à música e traduzi-las numa partitura gráfica recorrendo a um complexo sistema que envolve IA. Essa partitura é transmitida aos músicos que acabaram de tocar para os bebés, em tempo real, através de uns óculos de realidade virtual aumentada.
Também haverá câmaras a filmar os adultos e a partitura vai incluir uma parte do conteúdo musical que é construído em conjunto. Quando a mãe está com o bebé num concerto, se a mãe estiver apaixonada pelo que está a acontecer, não apenas por ver o seu bebé a gostar daquilo que ouve, o bebé sente que aquilo é um momento importante para a sua mãe. Sente-o na forma como a mãe o agarra e o direciona, como lhe fala… ele tem memórias sonoras e musculares. E dizemos a mãe, mas pode ser o pai, o avô, a madrinha… O grau de envolvimento do bebé está indexado ao grau de envolvimento dos pais [ou acompanhantes].
Na verdade, os músicos vão ver uma partitura gerada pelo bebé e pelo adulto que está com ele e vão tocar essa música que foi criada quase a oito mãos – duas do bebé, duas do acompanhante, duas da IA e duas do músico.

Musicalmente © Joaquim Dâmaso
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