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Janeiro 2026
Começou como busker nas ruas do Porto, a tocar temas que compunha na sua guitarra. Nas suas composições, assume uma linguagem muito própria enraizada no gypsy jazz e onde convivem géneros como a cúmbia e o flamenco, mas também ritmos dos Balcãs. Granjeou fãs nas redes sociais e começou a ser convidado para concertos e festivais. Depois de dois EP – Advogado do Diabo (2021) e II (2022), no passado mês de setembro lançou o álbum de estreia, Os Cães Ladram, integralmente produzido e tocado por si – à exceção de dois temas em que contou com a participação de dois músicos amigos. Confessa que “gostava muito” de tocar um dia com Tó Trips (deixamos aqui o repto). Conversámos com João Cardoso, mais conhecido por O Mau Olhado, que se apresenta em formato trio no Rivoli, a 10 de janeiro, na Festa do 2.º Aniversário da Agenda Porto.
Intitula-se O Mau Olhado, mas não é supersticioso – quer dizer, apenas um bocadinho: “Existem certos elementos ritualísticos antes de tocar, faço as coisas de uma certa maneira porque acho que vai correr melhor apesar de não haver uma justificação lógica para isso”, admite. O nome artístico tem origem numa história de família: nos seus anos adolescentes, João “estava na sua fase rebelde e, por não se portar tão bem”, uma tia-avó achava que tinha mau olhado foi “à bruxa” para que esta o curasse. Anos mais tarde, João descobriu essa história e quis incorporá-la na sua persona artística.
Licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores na FEUP, mas “não gostou muito daquilo”. Iniciou-se na música aos 16 anos como autodidata, tendo passado, mais tarde, pela Escola de Música de Jazz do Porto, e foi aos 26, quando ficou sem trabalho, que começou a tocar nesses grandes palcos improvisados da cidade – as ruas, experiência que considera “muito importante” porque “validou as suas composições” e fê-lo acreditar que podia viver da música.
Por ser avesso a covers (“faço versões”), João começou logo a tocar as suas músicas originais “sem saber se conseguiria ganhar dinheiro com elas”: “correu bem e consegui começar a pagar as contas, e isso foi fixe”, conta-nos. “Estava a pensar em experimentar já há algum tempo só para ver como é que corria e cheguei à conclusão de que fazia mais dinheiro a tocar duas horas na rua do que se estivesse oito horas no escritório”, admite. E, apesar de não poder tocar todos os dias, concluiu que “se conseguisse fazer uma gestão do dinheiro e trabalhasse bastante", podia viver como busker.

O Mau Olhado © Rui Meireles
“Não tenho tanto tempo para tocar na rua, mas de vez em quando ainda vou e quero continuar a fazê-lo, mas por prazer."
A passagem das ruas para os palcos aconteceu “muito devagarinho”, e foi graças às redes sociais que conseguiu difundir mais o seu trabalho. João “tocava, filmava e publicava no Instagram”, e começou a ser contactado para dar concertos e fazer casamentos.
Hoje atua, sobretudo, em salas de espetáculo, mas não deixou de ser um busker e continua a gostar de tocar na rua – apesar de, nos últimos tempos, fazê-lo com menor frequência devido à gravação do álbum e à “mini tour” de apresentação.
Segundo o músico, um dos pontos positivos do busking é poder testar as suas composições: “só quem é cativado é que fica a ver, e vem deixar uma moeda ou falar contigo”. “Acho que a rua é fixe porque há uma interação autêntica entre as pessoas que estão a passar, que não estavam à espera de te ver e que, por acaso, tiveram essa surpresa no dia delas. Também, às vezes, é uma desilusão, não é? [risos]”

© Rui Meireles

O Mau Olhado © DR
Com uma linguagem "guitarrística” fortemente marcada pela guitarra portuguesa, João assume também “a grande influência” de Manouche, jazz cigano com origem em França, e do seu precursor, o guitarrista Django Reinhardt, de quem é assumidamente fã. “Também gosto muito de música latina, cúmbia, flamenco, música balcânica, árabe, que acabam por se influenciar entre si”, diz, acrescentando que “gosta de incorporar [nas suas composições] elementos da música oriental e ocidental”. “É por causa disso que a minha música tem esse aspeto viajado”, afirma.
Quanto à inspiração, admite que o Porto está presente nas suas composições: mais do que “o espaço físico da cidade” é, sobretudo, “o ambiente cultural” que o anima. “Às vezes, à noite, estou em casa um bocado aborrecido e vou por aí até ao Ferro, por exemplo, e ouço uma música, um techno, ou um funk,
e essas coisas também acabam por ‘entrar’ de alguma maneira”, diz.
Os Cães Ladram
Apesar de o álbum ter contado com o apoio da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), João não tinha orçamento para “uma produção grande”, e decidiu, por isso, ser ele a assumir essa tarefa. O músico considera que “acabou por funcionar melhor ter sido ele a assumir vários aspetos do álbum”: “eu tinha uma visão mais ou menos clara daquilo que queria que o álbum fosse e acabou por sair dessa maneira."
Foi João quem gravou os instrumentos todos que ouvimos - à exceção do saxofone em Balkan Surf, interpretado por Manu Díaz, e da colaboração de Tiago Barbosa em Romance de D. Fernando, uma adaptação “jazzística” de uma canção regional da zona de Viseu. “Exceto isso, fui eu que gravei os instrumentos todos, e é muito trabalho”, admite.
Não se considera um multi-instrumentista (“a guitarra é o meu instrumento”), mas garante que “consegue perceber o suficiente dos outros instrumentos para conseguir tirar deles aquilo que precisa para a composição funcionar”. “Consigo tirar do baixo o som que preciso para apoiar a minha guitarra, e a mesma coisa com percussões; também toquei muito melódica neste álbum, mas aí perdi mais horas a gravar. Tive de estar a praticar aqueles solos especificamente durante horas”, admite. O álbum demorou cerca de 10 meses a ser produzido.

Capa do álbum Os Cães Ladram © MUTES (César Amorim)
Sobre o feedback do público durante a tour de apresentação do álbum, João afirma que “acha que as pessoas gostam” apesar de “nem toda a gente estar habituada a ouvir música instrumental”. “No geral, acho que tem sido bom, e que as pessoas estão a começar a ficar mais recetivas – sobretudo depois de bandas instrumentais como Dead Combo e Expresso Transatlântico, que começam a abrir caminho”, defende.
Quanto a novos projetos, neste mês de janeiro, João vai ter “uma experiência nova” e vai aventurar-se a criar uma banda sonora para uma peça de teatro. Admite que também “gostava de gravar um álbum com o seu trio, ou seja, com os músicos todos em um estúdio ao mesmo tempo, como se fosse um álbum ao vivo, para ter aquele elemento de espontaneidade”.
Entretanto, vão poder vê-lo na Festa da Agenda Porto, no Rivoli, já no dia 10 de janeiro, em formato trio. O músico vai apresentar Os Cães Ladram, mas garante que quem conhece o álbum vai ter uma experiência “completamente diferente”: “os temas são os mesmos, a melodia principal dos temas mantém-se, mas a nossa approach ao vivo é um bocadinho mais jazzística, ou seja, nós tocamos o tema, mas temos uma longa fase de improviso entre todos nós, com variações; tudo o que acontece no meio dos temas é ‘o que for’, é tudo improvisado”. Além dos temas do álbum, João promete, ainda, algumas surpresas. Fica o convite para virem à Festa do 2.º Aniversário da Agenda Porto, que contará, também, com a atuação de Charif Megarbane (no Grande Auditório do Rivoli). A animar a pista de dança do TMP Café estará Awesome Tapes From Africa.
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