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setembro 2026
Collado (em castelhano pronunciado “cólhado”) significa “colina”, “cerro”. É também o apelido de Javi, músico de Cuenca que decidiu convidar sete amigos a erguer um lugar que abarcasse muito do folclore da Península Ibérica. E, ao contrário da Jangada de Pedra de Saramago, o território criado pelo grupo move-se sem se desprender das raízes.
Neste octeto, formado por gente na casa dos 30, 40 e 50, todos cantam e todos tocam percussão, com pandeiretas, colheres, adufes ou tambores, mas também há um violino de cinco cordas e um bandolim, uma espécie de guitarra pequena (a jarana), outra grande (a leona) e uma espanhola, um baixo elétrico e uma gaita asturiana. Além de Javi Collado, integram o grupo a percussionista Alba Chácon e a violinista Esther Sánchez (de Madrid), a cantora Ángela Furquet (de Castellón, mas a viver em Barcelona), o baixista Dani Vallejo e o gaiteiro Sergio López (respetivamente de Valladolid e Ponferrada, ambas na região de Castela e Leão), e ainda o guitarrista e flautista Pedro Bartolomé (de Colmenar Viejo, localidade madrilena) e a cantora portuense Teresa Melo Campos.

Teresa Melo Campos © Galen Fraser
O interesse de Teresa pelo cruzamento de culturas veio do berço. É “filha de pais viajantes”, que a levaram “para a China quando tinha seis anos”. Estudou em Londres, na Guildhall School of Music & Drama, integra o Çhâñt Élečtrónïqùe, coletivo composto por várias nacionalidades, e, por cá, além de ser cofundadora das Sopa de Pedra, dirige o Porto da gente, Porto presente, projeto que reinterpreta a tradição musical da sua cidade e das regiões vizinhas. Uma biografia com mundo, mas preenchida por música comunitária e apego ao território.
Em conversa com a Agenda Porto, diz que se lembra de Pedro Bartolomé dos “tempos áureos da ESMAE”, em que “toda a gente à volta” da escola “eram músicos”. O madrileno, enquanto se formava em Espanha, veio à Invicta fazer um curso com o professor Pedro Sousa Silva e conta que ficou “um pouco apaixonado pelo ambiente”, em que todos eram “muito, muito acessíveis, muito simpáticos”. Gostou que houvesse “pessoal a tocar o dia inteiro” e “salas de aula abertas 24 horas, 365 dias por ano”. Sentiu que “podia estudar e tocar quando quisesse”, além de que “havia sempre muita gente com quem sair, dançar…”. Acabou por se licenciar na instituição, em Música Antiga, com especialização em Flauta, mas à distância: vinha ao Porto apenas uma vez por mês, enquanto dava aulas de música em escolas primárias na sua terra, e no verão vinha por mais tempo.

Pedro Bartolomé © Antonio Rubio
A ligação ao ensino não é exclusiva de Pedro e Teresa. Nos Collado, todos têm uma sólida formação musical e são professores. Na vontade conjunta de manter vivo um legado, também se pode ver um lado pedagógico. Segundo Melo Campos, todos estão “interessados em folclore, de diferentes sítios”, sendo que nalguns casos a atração pode até ter vindo de fora para dentro: “porque nos apaixonámos por um folclore do lado, viemos parar ao nosso”. Explica que são “gente inquieta e curiosa pela tradição e pela função da tradição”, e dá o exemplo do baixista, que “é um apaixonado de música indiana e aprendeu a falar japonês”. Antes ou a par do folk, a maioria tem percurso em bandas de outros estilos, seja o jazz, o rock, a música clássica ou a eletrónica.
Na década passada, a tal inquietude fê-los acudir, desde cada um dos seus cantos, ao Encontro de Música Tradicional Ibérica, organizado pela Coetus, orquestra do percussionista Aleix Tobias que une ritmos castelhanos a outros, por exemplo africanos e latinos. “Nós íamos lá aprender, desfrutar, e tornámo-nos amigos muito rapidamente”, explica Pedro Bartolomé. “Acho que quase todos nos conhecemos lá”. Teresa confirma. “Nos anos seguintes encontrávamo-nos sempre, formávamos uma pequena grupeta dentro do festival”, continua o flautista. “Fazíamos as nossas festas, e durante o ano também tentávamos combinar algo na zona do Javi, que sempre foi um grande impulsionador da coletividade e nos juntava em Cuenca.”

Capa do primeiro disco da banda, lançado em 2021 © Collado
A chegada da pandemia foi, como para muitos outros projetos criativos, o gatilho. “O Javi disse: é agora que vou juntar esta gente toda”, recorda Teresa Melo Campos. “Ele tinha 11 ou 12 ideias de canções que queria fazer com gente diferente e pensou em nós, ligou para cada um e foi muito rápido”, acrescenta Bartolomé. “Por supuesto!”, “vamos lá!”, “faremos o que pudermos”, terão sido algumas das respostas.

Segundo álbum, lançado em 2024 © Collado
Aprender entre pares que tem muito em comum
Para lá dos concertos espalhados por Espanha, nos últimos anos os Collado têm também organizado os seus próprios encontros, reunindo músicos que os vários membros vão juntando à sua volta. “É para partilhar o que vamos aprendendo”, indica Teresa, “porque cada um de nós começou a ter um coro ou um grupo de percussão – ou um grupo de percussão que canta – em torno de música de raiz tradicional”. Em 2025, encontraram-se em pleno centro da península, no pequeno município de Cercedilla, na Serra de Guadarrama, e este ano escolheram uma localidade junto à fronteira entre as duas Estremaduras. “Fazemos como se fosse um festival, tipo aquele em que nós nos conhecemos”, detalha a portuense. Numa era em que estas conexões “se multiplicam muito rapidamente” e de forma “irresistível”, Teresa acha que as pessoas que reúnem veem este género de envolvimento como “uma forma de revolução”. A ideia, completa Pedro, é que se criem “também redes entre alunos”, fugindo de formatos em que “sejam apenas os professores a mandar”.
Desafiada a comentar o momento atual do folclore ibérico, em que artistas como o asturiano Rodrigo Cuevas ou as galegas Tanxugueiras chegaram a grandes palcos com a fusão de sons regionais e música urbana, Teresa concorda que a fase é boa, mas prefere apontar para o todo: “talvez seja o primeiro momento da história [da música tradicional] em que voltámos a falar da Ibéria”. Dá nota da correlação de patrimónios musicais com o caso do adufe, instrumento de percussão português que tem um irmão espanhol, o pandero cuadrado. “Só agora é que se estão a criar essas pontes”, diz. “Estamos a perceber que dançamos todos com os braços no ar.” Essa autoconsciência, ressalva Melo Campos, não surgiu de repente, mas, sim, do trabalho de muitos: “há gente a estudar a música da fronteira, há pessoal a fazer documentários há 10 anos…”. Destaca ainda que só recentemente começou em Espanha “o primeiro mestrado em música tradicional reconhecido pelo Estado”, coordenado precisamente por uma das percussionistas dos Collado.

© Galen Fraser
Bartolomê alerta também para as diferenças de investimento entre o folk e outras áreas musicais. Face a “orçamentos muito pequenos”, “tens de pôr muito da tua parte, muito amor pela música” – e dá o exemplo da amiga Teresa, que “está a fazer muitas coisas nas ruas, o que é uma maneira de dar a conhecer [o género] a muito mais gente”. Outra forma de aumentar a notoriedade, diz, é a colaboração com artistas “mais mainstream”. Refere, como exemplo, a cantautora Rozalén e a banda de pop rock Vetusta Morla, nomes com êxito comercial em Espanha que têm “pegado em cantos tradicionais”. Teresa reconhece que o que fazem “tem muito pouco mercado”, mas importa-lhe marcar a distinção entre mundos. Defende que, no “estado original” da música tradicional, “não há público nem performers, a sua base é a necessidade humana de nos encontrarmos e de acompanharmos o dia a dia com música”. O que “tem uma lógica completamente diferente de gravar um disco para fazer dinheiro, para vender, e investir em t-shirts”. Destaca ainda o lado “de trazer as coisas para a rua”, pois “é aí que a música tradicional vai acontecendo”, e termina a falar no final das atuações: “se calhar, um músico mainstream termina o concerto, a audiência agradece e acabou; nos concertos de folk, muitas vezes descemos do palco e começa então um ritual mais acústico, onde cabe toda a gente, com canções para toda a gente cantar…”.
A comparação leva Teresa a recordar o início das Sopa de Pedra: “foi uma forma de um grupo de amigas se manterem juntas, somos amigas desde muito pequenas, todas do Porto, e decidimos ir fazer em cima de um palco o que já fazíamos na Praça dos Poveiros às três da manhã.” A lembrança leva-a ao lado emocional provocado pelas canções tradicionais, que não deixa de a surpreender – “o público pensa: porque é que eu estou a chorar se não ouvia isto desde que a minha avó o cantava?”. A resposta estará nas entranhas: “a relação que a música tem com o nosso corpo também é completamente diferente se a tiveres ouvido na rádio ou na tua família.”

© Antonio Rubio
Um concerto para deixarem de ser um segredo em Portugal
Pedro Bartolomé concorda que os concertos “mais de rua”, em que tocam próximos do público, talvez sejam os “mais especiais”. Mas do trajeto da banda destaca duas atuações do passado mês de janeiro em auditórios de Barcelona e Madrid, em que atuaram justamente com as Sopa de Pedra. “Mais do que pelos lugares em si, pela irmandade e por juntar os dois projetos, foi bestial”, diz num português bem decente. Lembra ainda um espetáculo no tal Encontro de Música Tradicional Ibérica, por ser um regresso ao local de origem, em que o organizador falou deles como se fossem “seus filhos” e os deixou “todos a chorar, como putos”, recorda sorrindo.
Ambos mostram entusiasmo por finalmente se estrearem em Portugal e poderem quebrar uma fronteira que não há na sua música. “Sinto que, para mim, como portuguesa mitra num projeto cheio de gente de várias regiões [espanholas], é muito interessante aperceber-me de que somos a mesma coisa”, explica Teresa, considerando que por cá se conhece muito pouco “da tradição do lado, fora o flamenco”. Também por isso “este concerto que vem aí é muito importante”, e desejam que seja apenas um início: “há muito caminho para percorrer, esperamos tocar por Portugal fora.”
A 20 de setembro, os Collado atuam no Porto Sounds Secret, ciclo programado pela empresa municipal Ágora em locais da cidade mais ou menos inusitados. O local do concerto, até agora em segredo, será a Galeria da Biodiversidade.
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