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Crónicas da ZOP
Bairro da Maceda
Ainda antes da inauguração do seu espaço físico, o Matadouro – Centro Cultural do Porto encontra-se já a documentar e amplificar o território que o envolve: a zona oriental do Porto.
Cronicas ZOP Bairro da Maceda

abril de 2026

Crónica redigida a partir de excertos de entrevistas realizadas em 2015, por Pedro Neves. António Lima acabaria por falecer em 2020, na sequência da Covid-19. Esta crónica é a homenagem a um homem que nunca desistiu da sua comunidade e que lutou para que a população do Bairro da Maceda vivesse com dignidade.

António Lima agarra-se ao seu ancinho com o afinco com que se amarra a qualquer missão: “Quando tomo as rédeas de qualquer coisa, não sou fácil de desistir”. Naquela manhã, era a horta, a qual não passa um dia sem visitar, que lhe dava luta. Mas há 40 anos, foram outras as lutas que António teve de sachar. “Arranjei companheiros que me ajudaram e conseguimos este objetivo com muito sacrifício, muitas noites perdidas e muitas viagens a Lisboa. Aqui está o resultado.”


O resultado é o Bairro da Maceda, nascido no seio do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), um projeto estatal criado em julho de 1974, profundamente experimental e revolucionário, que visava garantir o direito à habitação digna às populações mais desfavorecidas. Foi o núcleo Norte do SAAL, sob a batuta do arquiteto Alcino Soutinho, que projetou a construção de 47 fogos habitacionais para o lugar do Acácio, dos quais 33, correspondentes à primeira fase do projeto, ficaram concluídos. *

Cronicas ZOP Bairro da Maceda

Fotografia de arquivo ©  Rui Pinheiro

Até então, como recorda António Lima, as pessoas moravam numa ilha, em condições “desumanas”. “A ilha do Acácio era uma imundice! Não era uma habitação, era um barraco”, diz, folheando um álbum de fotografias com rostos como o da “Bia Peixeira”, cara familiar que salta de uma paisagem onde os “ratos eram autênticos coelhos” e as famílias, às vezes com “oito e nove filhos”, não tinham um quarto onde se deitar. “Quartos de banho não havia. Eu, às vezes, quando queria fazer as minhas necessidades, tinha de ir ao café.”  A água vinha de um poço, ao qual as pessoas acorriam com baldes, e ao fundo da ilha havia vacas. “Para além da badalhoquice que aqui havia, ainda levávamos com aquele perfume.”


O 25 de Abril veio dar uma nova consciência social e coletiva a esta população. Em abril de 1975, os moradores anunciaram em plenário que deixariam de pagar a renda aos senhorios que, entre multas acumuladas à Câmara Municipal do Porto, não se prontificaram a fazer as obras necessárias na ilha. No Jornal de Notícias, aparecia esta manchete: Deixa de pagar aos senhorios a gente mais humilde do Porto [JN, edição de 6 de abril de 1975].

Cronicas ZOP Bairro da Maceda

O tribunal deu-lhes ordem de despejo, mas eles, que a 22 de maio de 1975 criaram a Associação de Moradores da Maceda, não arredaram pé. “Para se conseguir alguma coisa, nunca podíamos sossegar. Marcámos então uma reunião com o Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves, que nos disse assim: ‘Enquanto eu for Primeiro-Ministro deste país, despejos não há’. E não houve”. António não tem dúvidas: “Foi Deus que pôs aquele homem connosco”.


Finalmente, em novembro de 1975, começaram as obras no Bairro da Maceda, impulsionadas pelo SAAL. As casas demoraram três anos para serem concluídas e foram entregues a 8 de dezembro de 1978. “Foi difícil, mas vencemos”. Hoje, António Lima é presidente da Associação de Moradores, à qual pertencem as casas (embora o terreno seja camarário). “O projeto já passa de 40 e tal anos, mas mesmo assim temos aqui umas casas muito boas. Na altura, pareciam uns palácios.”


Os grandes desafios do presente, diz, passam por conciliar “a velhada, começando por mim”, com os moradores jovens, a quem prontamente atira umas alfinetadas: “Os mais novos são doentes da espinha. Antes, as pessoas eram mais dedicadas ao trabalho do que agora”, refila com o ancinho espetado na terra, para logo resfriar os ânimos. “Tem de se ter calma e um bocado de paciência para os levar e para eles nos aturarem a nós.”

*Em outubro de 2019, a Domus Social avançou com as obras da segunda fase do projeto original. Andrea Soutinho, filha de Alcino Soutinho, foi a arquiteta encarregue de liderar este processo. Em 2022, os 15 fogos habitacionais, espalhados por três blocos, ficaram concluídos, mas as casas ainda estão por habitar. Foram ainda feitas obras de saneamento, arruamento e de reforço dos muros de contenção dos terrenos vizinhos. Já em 2026, a Câmara Municipal do Porto iniciou uma reabilitação profunda no Bairro da Maceda, com a substituição do pavimento por calçada de granito e a instalação de novos bancos. 


Cronicas ZOP Bairro da Maceda

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Texto de Filipa Vaz Teixeira

Fotografias: © Rui Pinheiro

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