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setembro 2026
Da minúscula mas altiva varanda da torre da Moagem Ceres vê-se o Porto com olhos de águia. Vê-se o presente, o passado e o futuro, entre vestígios de quintas novecentistas banhadas pelo Douro, artérias frenéticas de carros, os camiões a carregarem as mercadorias no Mercado Abastecedor e as obras de reabilitação do antigo Matadouro Municipal do Porto a correrem a um ritmo veloz. Indiferente a estes cruzamentos da história e do tempo, a Ceres vira-se para a labuta que mantém há mais de cem anos: mói o trigo que o país espera receber para fazer o pão nosso de cada dia.
“São cerca de 300 a 400 toneladas que saem daqui todos os dias”, refere Raquel Mogo, responsável de produção, enquanto contorna os tubos gigantes que ligam os diferentes pisos da moagem e que, ajudados pela força da gravidade, transformam o grão em farinha. Seccionando este fluxo noutras unidades temporais, estamos a falar de 355 quilos de farinha por minuto, precisa Elvin, moleiro-chefe, comandando o músculo de cada uma das máquinas da fábrica através de uma sequência de monitores que lembram o painel de instrumentos de um avião.
Tal volume de produção só é possível mantendo a Ceres a funcionar 24 sobre 24 horas, ecoando o legado industrial que cinzelou as feições da “cidade do trabalho” e dos seus habitantes. José Manuel Lopes Cordeiro, professor e historiador que tem dedicado grande parte da sua carreira ao património e arqueologia industrial, observa que, “em toda a cidade do Porto, a indústria, pelo menos até 1960, moldou inconscientemente o carácter e as relações sociais dos portuenses”. Isso é tanto ou mais evidente na chamada Zona Oriental, em particular nas freguesias do Bonfim — que no século XIX tinha a maior concentração de unidades fabris e operários do Porto — e de Campanhã, coração da industrialização portuense, principalmente a partir do momento em que a estação ferroviária é inaugurada, em 1875.

Foi precisamente a estação que aproximou Campanhã — concelho autónomo do Porto até à reorganização administrativa de 1833–1834 — do centro da cidade. Porém, como nota Lopes Cordeiro, esta aproximação traduziu- se numa relação mais funcional do que de coesão social: “Ao tornar-se nó ferroviário e depois polo industrial, Campanhã absorveu as funções ‘sujas’ ou meramente utilitárias da cidade — armazéns, oficinas, cargas, habitação operária — que a Baixa e o centro histórico rejeitavam. A ligação física através da via férrea não uniu classes sociais; serviu, sobretudo, para trazer mão-de-obra para o centro e para levar produção do centro, sem misturar verdadeiramente as populações.”
Por isso, é ainda comum ouvir entre os moradores mais velhos da Zona Oriental a expressão ‘vou ao Porto’, reflexo de uma “memória social que não se rende facilmente à geografia física”: “A industrialização do Porto oitocentista e novecentista não produziu um tecido urbano homogéneo; produziu enclaves”, sublinha o também Presidente da Associação Portuguesa para o Património Industrial (APPI). A própria configuração urbanística de Campanhã (e também do Bonfim), com as quintas burguesas e as ilhas residenciais a serem dissonantes e, ao mesmo tempo, elos da mesma engrenagem, reforçaram esses enclaves. “Tal como se processou, a industrialização portuense precisava, simultaneamente, da quinta (capital, prestígio, propriedade fundiária convertível) e da ilha (mão-de-obra barata, disponível, contida).” Uma surgiu nas traseiras da outra, numa espécie de “arquitetura da ocultação” desenhada para gerir e conter a população operária e para servir os interesses da burguesia capitalista.

Da varanda da torre da Moagem Ceres, tudo é, subitamente, desocultado. Passado, presente e futuro enquadrados no mesmo plano. Enquanto o trigo é moído debaixo dos nossos pés, a copa da floresta de Kengo Kuma cresce ali ao lado, reivindicando o advir do Matadouro — Centro Cultural do Porto. Um e outro partilham o mesmo legado industrial: o Matadouro pela “via da memória” e a Ceres “pela via da persistência”. “A Ceres é o argumento vivo de que a Zona Oriental não precisa de escolher entre a indústria e a cultura, porque nunca deixou de ser as duas coisas ao mesmo tempo.” Desta farinha, burguesa e operária, somos todos (portuenses) feitos.

Texto de Filipa Vaz Teixeira
Fotografias © Rui Pinheiro
Mais Crónicas da Zona Oriental do Porto (ZOP) em matadouroporto.pt
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