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Conjugar o Porto
Esverdear com Filipa Almeida
Entrevistas
A agricultora urbana e fundadora do projeto Jardins al dente passa os seus dias a "esverdear" o Porto, cuidando das hortas de diversos espaços públicos e privados e dinamizando workshops em torno delas
Conjugar Porto Filipa Almeida

abril 2026

Filipa Almeida está na natureza como em casa. Menina da cidade, nas palavras da própria, cresceu nos arredores do Porto, em Custóias, numa altura em que a urbanização ainda estava longe de engolir a ruralidade. “Eu atravessava a estrada e, do outro lado, era um campo de milho”, recorda.


Os dias longos passados entre jogos e brincadeiras no jardim fomentaram-lhe o gosto por estar ao ar livre. A vontade de mudar o mundo e “fazer qualquer coisa pelo ambiente” viria mais tarde, levando-a a ingressar no curso de Engenharia do Ambiente. Mas, uma vez integrada no mercado de trabalho, viu a utopia escapar-lhe por entre os dedos.


Depois de um curso mais direcionado para a indústria do que para o ambiente, começou a fazer consultoria ambiental e teve a sorte de passar os primeiros anos no meio de florestas, a acompanhar o projeto de um gasoduto. Porém, concluído esse trabalho, as suas funções resumiam-se a visitar indústrias e voltar para o escritório para elaborar os respetivos relatórios.


“Esse período custou mais, porque não tinha tantas possibilidades de trabalhar ao ar livre e isso mexia comigo”, confessa. Nessa altura, descobriu o Horta à Porta, projeto de hortas comunitárias da Lipor, e inscreveu-se. “De 2008 a 2014, fui aprendendo a fazer agricultura num pequenino talhão de 25 m².”

Mais tarde, por conta do seu envolvimento num projeto de economia social e solidária, conheceu a então responsável pela Horta da Partilha — um espaço com 1500 m² inserido numa quinta de um hectare em Arca d’Água —, que pediu ao grupo de Filipa ajuda com a produção de alimentos.


“Não havia talhões, toda a gente cuidava de tudo”, relata. “Produzíamos legumes, ervas aromáticas e por aí fora.” Depois de uma primeira incursão nas hortas urbanas a título pessoal, esta experiência permitiu-lhe contactar com a vertente comunitária de forma regular.


Em 2020, quando já exercia consultoria ambiental em regime freelance, Filipa integrou a equipa da Noocity, start-up portuguesa fundada em 2013 e, entretanto, extinta, que desenvolvia produtos e serviços inteligentes para a prática da agricultura urbana em casa, em empresas ou em espaços colaborativos.


Simultaneamente, acumulavam-se os pedidos de conhecidos, ou de conhecidos de conhecidos, que tinham jardins ou hortas para cuidar ou terrenos para cultivar e precisavam de apoio. Tirando partido da sua formação em design de permacultura, foi projetando espaços verdes e pondo em prática a sua crença de que “os jardins também podem ser comestíveis".

Conjugar Porto Filipa Almeida

“Podemos ter jardins incrivelmente bonitos, em que o lado estético está muito presente, mas também podemos alimentar-nos deles”, explica a fundadora do Jardins al dente, projeto batizado com esta matriz e que agrega todos os serviços por si prestados.


À medida que consolidou trabalho em várias frentes, como consultora, grower de hortas urbanas, formadora de agricultura biológica e projetista de hortas e jardins, Filipa Almeida tem abraçado o cuidado de várias hortas da cidade, desde as de instituições de ensino como a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) ou a Porto Business School (PBS) às de espaços como o Alameda Shop & Spot, a Associação de Turismo do Porto e do Norte, o Espaço Agra, entre outros.


“Em média, tenho três a quatro hortas por semana para fazer manutenção ou organizar workshops”, revela a agricultora urbana. O trabalho difere de horta para horta consoante o seu objetivo. Umas focam-se na produção, “porque [essas entidades] doam para instituições de caridade” e, por isso, “precisam de [ter] número e [gerar] impacto.” “Nesses casos, existem conversas de café, como é que vão as dores de costas, como é que vai a neta que nasceu este mês, mas não há tanto uma dinâmica em torno de assuntos relacionados com agricultura.”


Outras, “também por serem mais pequenas”, têm como prioridade “dinamizar uma comunidade” em seu torno e, por isso, exigem mais preparação. “Nas primeiras, é só chegar e fazer o trabalho necessário, nestas é preciso pensar num tema e/ou atividade associados”, explica. Apesar do objetivo ser transmitir conhecimento, os workshops não se assemelham, de todo, a uma aula. “Tento sempre passar o ensinamento enquanto estamos a fazer [as tarefas].”

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Quando não está com as mãos na terra, Filipa está a fazer “trabalho de back office”, que inclui a comunicação e produção de relatórios, ou a frequentar as aulas da licenciatura em Arquitetura Paisagista. Além disso, dá resposta a projetos pontuais e, mais recentemente, tem estado, com outros colegas, a alavancar o movimento da agricultura urbana em Portugal. “Toda a gente sabe que ele existe, mas há pouca sistematização da informação”, aponta.


Neste mês de abril, todo o trabalho fora das hortas terá de esperar, já que é altura de plantar tudo o que é da época primavera-verão. “Março ainda é um pouco instável, mas abril é altura de pôr na terra tomates, pepinos, pimentos, beringelas, alfaces, cebolas, abóboras, tudo...”.


Nas próximas semanas, Filipa andará numa azáfama, de horta em horta, a limpar os canteiros e a fertilizar a terra para, de seguida, realizar as plantações de primavera. “É a altura mais puxada a nível físico”, reconhece.

Mesmo com a promessa de frenesim, a grower não esconde o entusiasmo com a chegada da primavera. “É a estação que puxa mais pelos meus sentidos. São os cheiros, as texturas, as cores, a luz que começa a ficar diferente”, enumera. Apesar da lista razoável de argumentos, não consegue escolher uma estação favorita. “Tenho sorte de não ter a dita cegueira vegetal de que muitos humanos sofrem”, brinca. “Consigo encontrar beleza até no inverno.”


Seja em que estação for, é provável que a encontremos a apreciá-la no Parque da Cidade, o seu espaço natural favorito do Porto. “Sempre que lá vou, tenho a sensação de que entramos num outro mundo. Quanto mais nos embrenhamos, mais parece que deixamos a cidade.”

Fotografias: © Rui Meireles

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