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Janeiro 2026
Quem já entrou na Igreja Paroquial de S. Martinho de Cedofeita terá, certamente, ficado impressionado com o feérico e majestoso órgão de tubos do fabricante suíço Kühn. Com 10 toneladas e cerca de 2.400 tubos, este instrumento é o protagonista de um programa multidisciplinar, com iniciativas de natureza cultural, artística, pedagógica e social, que têm estado a decorrer desde setembro do ano passado. As celebrações dos 25 anos da sua construção serviram de mote para André Bandeira e Nuno Miguel de Almeida, organistas naquela igreja (vê vídeo abaixo), desenharem um ciclo que abarca concertos, oficinas e visitas guiadas para todos os públicos. Mas antes de falarmos sobre este ciclo, quisemos saber o que os motivou a estudar este instrumento.

Õrgão de Kühn da Igreja de Cedofeita © Renato Cruz Santos
Natural de Gondomar, André Bandeira começou sua formação musical no curso de Música Sacra da Diocese do Porto. “É uma história bastante engraçada, porque o meu pai sempre teve ligado, de alguma forma, à música litúrgica e à música sacra. Na nossa freguesia, ele dirigia coros e sempre tentou que eu entrasse um bocadinho nesse mundo”, conta à Agenda Porto. Até aos 18 anos, André torceu o nariz à ideia até que um dia acompanhou o pai a uma igreja onde viu e ouviu, pela primeira vez, um órgão de tubos “a ser bem tocado”. “Foi amor à primeira vista [e à primeira escuta]. Era domingo, e lembro-me perfeitamente de me virar para ele e dizer ‘amanhã vamos procurar uma escola para eu ir aprender a estudar este instrumento’”, recorda. Rapidamente, concluiu que este seria o caminho que iria seguir profissionalmente.
Nuno Miguel de Almeida, que começou a estudar música aos quatro anos, também enveredou por esta área “por acidente”, seguindo as pisadas do irmão mais velho que estudava no Instituto Orff do Porto. “Eu era um bocadinho traquina e, na altura, não havia uma missão para me ocupar os tempos livres, e acabei por ir ficando na escola de música onde ele andava”, conta, acrescentando que, “desde muito cedo, quis estudar órgão de tubos, dada a sua ligação à paróquia de Cedofeita".
Apesar de ambos lecionarem música, Nuno voltou-se para a direção musical, “embora também tenha estudado bastante o instrumento”, enquanto André é professor no Conservatório de Música do Porto onde dá aulas de órgão.

Nuno Miguel de Almeida e André Bandeira © Renato Cruz Santos
Ciclo do 25.º aniversário do Grande Órgão Kühn de Cedofeita
Este ciclo, em que o órgão de tubos tem estado a dialogar com outras expressões artísticas – da literatura à dança, passando pela manipulação de fogo –, pretende, nas palavras de Nuno Miguel, responder a “três grandes objetivos” culturais, sociais e pedagógicos. Na vertente cultural, aponta os concertos gratuitos multidisciplinares, “que procuram estabelecer uma relação entre a música do órgão de tubos e outras linguagens artísticas”; e na vertente pedagógica, refere “iniciativas direcionadas para os mais novos”, que denotam “a preocupação de conseguir criar novos públicos, sensibilizar para a música do órgão e dá-la a conhecer aos mais pequenos”. Foi o caso das visitas organizadas com turmas do Agrupamento de Escolas de Rodrigues de Freitas.
André Bandeira assegura, neste sentido, que o órgão de tubos “é um instrumento que desperta muito interesse”. “É sempre um privilégio ver a reação das crianças face a este instrumento; e é muito fácil uma criança sentir-se atraída pelo órgão de tubos, desde logo pelo seu tamanho, pela sua dimensão, e depois pela quantidade de sons e timbres diferentes que consegue produzir, que mais nenhum outro instrumento consegue”, evidencia, e lamenta que ainda haja “um grande desconhecimento sobre este instrumento e sobre aquilo que é capaz de fazer”.

André Bandeira © Renato Cruz Santos
Ainda na vertente pedagógica, este ciclo tem promovido iniciativas para “quem está a profissionalizar-se na área da música, com oficinas para jovens compositores e organistas ligados à música litúrgica”, destacando-se, ainda, uma iniciativa, coordenada pelo arquiteto Sérgio Fontes, responsável pela remodelação da igreja de Cedofeita, “que deu a ver a importância de um instrumento desta natureza ser adaptado ao espaço arquitetónico sem causar rutura”.
Por fim, o maestro Nuno Miguel de Almeida destaca a vertente social deste ciclo, com visitas guiadas dirigidas ao grande público e às famílias, que “podem vir conhecer o instrumento, percorrer o seu interior, ver as suas entranhas, e todas as suas funcionalidades".
Este ciclo de atividades culmina no dia 10 de janeiro, às 21h30, com “um grande concerto”, que reúne vários coros da Diocese do Porto, e que pretende homenagear o Cónego António Ferreira dos Santos, “um grande promotor de órgãos de tubos, que possibilitou que hoje existam muitos instrumentos destes na cidade do Porto”.
História e organologia dos órgãos de tubos
Iniciativas como este ciclo servem para desmistificar a ideia de que este instrumento serve apenas repertórios de música antiga e litúrgica, mas também música profana contemporânea, como explica Nuno Miguel de Almeida. “Numa primeira fase, quando foi pensado, como órgão hidráulico, ainda no Império Romano, não era um instrumento religioso, e estava ao serviço dos grandes circos e dos grandes coliseus. Depois, acaba por haver uma adaptação deste instrumento às igrejas porque são espaços, do ponto de vista arquitetónico, bastante amplos. Com o passar dos anos, as igrejas foram acolhendo este instrumento, que ficou ao serviço da música sacra e da música litúrgica”, desfia o maestro.

Nuno Miguel de Almeida © Renato Cruz Santos
Sobre as particularidades do instrumento, além da própria estética, que “se tenta enquadrar numa igreja mais vanguardista, e é muito diferente de outros órgãos existentes na cidade”, André Bandeira frisa que se trata de um órgão sinfónico. “Não se especializa em nenhum repertório da história da música em particular, mas tenta fazer uma síntese de todos os períodos, e tenta criar, tal como uma orquestra, uma grande variedade de timbres e de planos e dinâmicas sonoras, desde o fortíssimo ao pianíssimo. Com estas características é único na cidade e no norte do país”, conclui o organista.
Também Nuno Miguel refere que este órgão, “com uma reverberação de cerca de oito segundos, acaba por responder melhor a uma música de espectros largos, uma música contemporânea, que viva muito de texturas".
Porto: uma “meca” dos órgãos de tubos
Questionados sobre se têm preferência particular por algum órgão de tubos da cidade, riem-se e optam por não eleger nenhum. Para Nuno, “cada órgão tem a sua identidade, o seu ADN; cada um responde a uma particularidade”. E exemplifica: “se quisermos ouvir música barroca, feita no seu esplendor, se calhar iríamos mais depressa até à Sé Catedral do Porto, porque é um instrumento inspirado nos órgãos desse período”. O maestro aponta ainda mais alguns instrumentos: o órgão de Santa Rita de Ermesinde, o da Igreja da Senhora da Conceição e o da Igreja da Lapa. “Nós somos uns sortudos na cidade do Porto por termos um conjunto de seis órgãos modernos e mais de duas dezenas de órgãos históricos”, afirma. “Acima de tudo”, acrescenta André, "o importante não é eleger o preferido, mas, sim, conseguir retirar o melhor que cada um deles nos dá, e aproveitá-los a todos, e colocá-los em diálogo, como tem acontecido em várias iniciativas da cidade.”
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