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maio de 2026
O aglomerado disperso pelo Largo do Padre Américo, um espaço discreto e pitoresco embutido na encosta da Sé, anuncia que este não é um sábado como os outros por ali. Munida de pranchetas de desenho, blocos de papel, materiais riscadores, pincéis, aguarelas e godés, uma vintena de pessoas acomoda-se nos bancos, degraus e muros do largo e do seu entorno. Depois de escolhido o recanto a retratar, estão prontas a Rabiscar o Porto com o anfitrião Vasco Mota, ilustrador e urban sketcher que promove encontros entre pessoas de várias idades e níveis de experiência para desenhar e ilustrar a cidade.
Portuense de gema, enveredou pelo curso de artes visuais no secundário por exclusão de partes e acabou por se formar em Design Gráfico na faculdade, onde descobriu o conceito de urban sketching — a prática de desenhar in situ e capturar cenas da vida quotidiana no meio urbano. “Gostei dessa ideia de tornar o processo mais despreocupado e de não ser um desenho muito realista”, contextualiza.
Antes de sair para o exterior, começou por desenhar em casa a partir de referências como fotografias e ilustrações de outros artistas. Depois, comprou um banco dobrável e calcorreou as ruas do Porto em busca dos melhores lugares para rabiscar. “Quando estamos a desenhar a cidade, vemos detalhes que muita gente não vê quando passa”, declara o ilustrador, que procura “ir além do óbvio” para representar “a essência escondida da cidade”.
O Porto inteiro cabe nas centenas de páginas dos diários gráficos que foi preenchendo ao longo dos anos, de monumentos emblemáticos e pontos turísticos como a Ponte Luís I, a Ribeira e a Torre dos Clérigos a locais escondidos como as Escadas do Barredo ou zonas mais residenciais como o Bonfim, bairro que Vasco aprecia particularmente por ter “casas com cores muito fortes, muito desenháveis, e imensas árvores”.
Muitas vezes, a inspiração vem ao seu encontro enquanto deambula pelo Porto. “Se vir um sítio que me chame a atenção, volto noutra altura para desenhá-lo”, revela. Volta e meia, percorre a cidade digitalmente, através do Google Street View, para explorar ruas e recantos desconhecidos. Outros sítios chegam ao seu radar pelas redes sociais. A este catálogo de novas possibilidades, juntam-se os inúmeros locais que já retratou e que não se esgotam num desenho. “Encontro sempre formas diferentes de representar um espaço.”
Para Vasco, a magia do urban sketching prende-se, também, com as conversas que propicia e as relações que instiga. “Já me aconteceu estar a desenhar num local, passar uma pessoa que também gosta de desenhar e que pergunta se se pode juntar.”

Depois de experienciar essa vertente social na primeira pessoa, e apercebendo-se dos encontros mensais de urban sketchers que aconteciam no estrangeiro, o artista decidiu criar o Rabiscar o Porto para “conhecer e juntar pessoas [em torno do desenho] e absorver novas técnicas [de artistas amadores e profissionais]”.
O primeiro encontro, realizado durante o desconfinamento, em 2021, teve apenas quatro pessoas. Porém, o projeto foi crescendo progressivamente e deu um salto ao ser acolhido pela Ágora em eventos como as Inaugurações Simultâneas de Bombarda. Aos poucos, foi-se afirmando como um espaço aberto a todos os que se interessam pelo desenho, independentemente do seu grau de conhecimento. “Quero que seja um local onde as pessoas se sentem confortáveis para desenhar, principalmente aqueles que não o costumam fazer ou que têm medo de começar”, vinca.
“Como é que começo?” é, precisamente, a questão mais colocada nestas sessões que, não sendo aulas, permitem aos participantes expor as suas dificuldades e receber informalmente orientações para poderem desenhar o que estão a observar. “Sinto muita insegurança no início, mas com o passar das horas, as pessoas vão-se libertando e vão percebendo que não há uma forma certa ou errada de desenhar.”

A diversidade de técnicas e abordagens é, aliás, a maior riqueza do urban sketching. “Podemos estar 20 pessoas num espaço pequeno, a desenhar praticamente a mesma coisa, e vamos ter 20 desenhos completamente diferentes”, salienta Vasco. No final de cada encontro, os participantes dispõem os trabalhos no chão, montando uma espécie de exposição pop up que espelha a multiplicidade de perspetivas. “As pessoas ficam sempre maravilhadas com os resultados tão diferentes.”
Atualmente, o Rabiscar o Porto acontece sem periodicidade fixa, mas com regularidade, em alturas com melhor probabilidade de bom tempo. Os dias de chuva podem condicionar o evento, mas são um bom pretexto para Vasco se refugiar no interior de cafés e restaurantes e desenhar os espaços, as pessoas e as comidas e bebidas que pede. Tal como nos desenhos no exterior, usa maioritariamente caneta de ponta fina para fazer o esboço e aguarela para lhe dar cor, misturando e aplicando tons intuitivamente num processo que faz o “desenho ganhar vida no papel”.
Recentemente, o artista tem alargado a panóplia de temas representados no seu diário gráfico. A par da cidade, começou a ilustrar jogos de futebol, unindo duas paixões e testando o desenho de “elementos que estão em movimento”, desafio que encontrou, também, quando se atreveu a retratar casamentos. “Há fotógrafos, pessoas a querer ver, barulhos a acontecer”, enumera. “Pode ser um processo cansativo, mas é útil para poder criar uma diversidade [de trabalhos].”
Seja em que cenário for, Vasco não abdica do descontraído gesto de rabiscar. “Não é nada final, que estive horas e horas a desenhar, com toda a cautela”, explana. “Quer dizer que estive na rua a desenhar, literalmente, em cima do joelho.” Para o ilustrador, o verbo encerra em si mesmo a alma do Porto. “É uma palavra muito mais terra a terra [que outras que são suas sinónimas], que se compara à nossa cidade, igualmente terra a terra.”

Do seu mapa de lugares favoritos da cidade, indissociável dos seus lugares favoritos para desenhar, constam a Casa e o Parque de São Roque, “um espaço cultural [e natural] muito interessante, com muitos detalhes para ilustrar”, a Casa Expresso, “um ponto de encontro ideal para provar comida típica, desenhar e trocar umas palavras com as pessoas” e o Quarteirão de Miguel Bombarda, “de onde se sai de barriga cheia depois de absorver o trabalho de outros artistas”.
Um dia, espera passar de inspirado a inspiração e ver o seu trabalho, que já apresentou a nível individual e coletivo em alguns espaços do Porto e arredores, exposto em mais galerias da cidade. Ademais, ambiciona criar uma “exposição sensorial” em torno dos seus diários gráficos, “onde as pessoas possam folheá-los à vontade”, e desenvolver um livro com as suas ilustrações, sobre o Porto ou outro local pitoresco do país, como as aldeias de xisto. E, como sonhar é em grande, imagina-se a fazer uma residência artística numa cidade estrangeira para a ilustrar e expor as suas obras no final. Mas, mesmo dando a volta ao globo, terá sempre o Porto à sua espera.
Fotografias: © Guilherme Costa Oliveira
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