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setembro 2026
A música é o fio condutor da vida de José Flávio Martins. Enamorou-se dela ainda garoto e fez dela gesto, hábito e, mais tarde, compromisso. Em 1990, fundou os Frei Fado d’El Rei, “banda que fundia a música medieval com tecnologias modernas”. “A fusão musical sempre me atraiu”, declara, antecipando um percurso de mais de 35 anos repartido entre diversos grupos e géneros musicais.
Esse primeiro projeto foi agraciado com o Prémio José Afonso em 2008 e levou-o a pisar vários palcos nacionais e internacionais. Seguiram se incursões pelo folk, música celta, pop rock, jazz, música tradicional portuguesa e fado numa mão cheia de grupos como Ceia dos Monges, Roldana Folk, Lúmen e Atlantihda. Este último reunia seis elementos de vários estilos musicais e tinha como vocalista Gisela João. “O primeiro registo discográfico da Gisela aconteceu nesse âmbito.”
Durante duas décadas, José Flávio Martins, de 61 anos, integrou diversas formações, por vezes mais que uma em simultâneo, nunca descurando a heterogeneidade de referências e sonoridades na sua prática artística. “Isso deu-me uma bagagem muito grande para poder, numa fase posterior, passar conhecimento aos outros.”
Essa oportunidade chegaria em meados de 2013, quando o então presidente da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto (UFCHP), António Fonseca, o convidou a liderar o coro da união de freguesias, instalado hoje na junta de freguesia de Miragaia, na Cordoaria. Sem experiência no ensino da música, salvo algumas aulas particulares, aceitou prontamente o desafio.
Desde então, tem guiado um grupo de coralistas com idades entre os 30 e os 90 anos por um percurso ascendente. Até à data, o coro gravou dois discos, foi à televisão e atua regularmente nos coretos e igrejas da cidade, no verão e no Natal, respetivamente. Além disso, apresenta-se nos centros comerciais da cidade – recentemente, atuou nas comemorações dos 50 anos do Shopping Brasília – e em locais emblemáticos como o Mercado do Bolhão.

Ensaio do Grupo Coral Portuense

Em 2023, vendo que o Coro do Centro Histórico do Porto integrava, sobretudo, membros das freguesias da cota baixa da cidade, como Sé, Miragaia ou São Nicolau, o novo presidente, Nuno Cruz, decidiu criar outro coro para dinamizar a cota alta: o Grupo Coral Portuense. Há um ano, desafiou José Flávio a assumir o comando do coro, sediado na Associação de Moradores da Bouça.
Tal como o primeiro, este é um grupo diverso, que reúne pessoas com idades situadas entre os 40 e os 80 anos, muitas delas residentes no bairro e no seu entorno. Em ambos os casos, é o passa-palavra que traz novos membros, mas também o contacto com o projeto através das redes sociais. “Tento incutir neles a alegria e o prazer de estar a cantar, a tocar e a interagir”, revela o músico, que procura equilibrar o rigor musical e a dimensão social nos ensaios. “Há aqui um fator terapêutico que vai ao encontro da responsabilidade que a união de freguesias tem de fomentar o bem-estar das pessoas.”
A abordagem técnica do maestro é transversal aos dois territórios, quer os coralistas tenham ou não aptidão e/ou experiência musical prévia. Por um lado, encoraja-os a escolher um instrumento para aprender ou melhorar as suas capacidades. “Num coro, brilham principalmente as vozes, mas os instrumentos tornam no muito mais rico”, sustenta. Também por isso dirige o coro não apenas gesticulando, mas tocando em simultâneo.
O repertório trabalhado integra temas do cancioneiro tradicional português, hinos da música latina mundial, canções de músicos e bandas nacionais e temas da autoria de José Flávio Martins. E, se é verdade que foi o Coro do Centro Histórico do Porto a abrir caminho às atuações ao vivo, atualmente ambos os coros se apresentam regularmente em concertos gratuitos em locais públicos.

No dia em que a Agenda Porto conversa com o maestro, o Grupo Coral Portuense inaugura o ensaio com o popular tema de Rui Veloso, Porto Sentido. “Tenho o privilégio de conhecer uma grande parte do mundo e não sei de outra cidade com esta poesia”, avalia o músico. Também ele, que nunca largou a composição, já lhe dedicou várias letras e melodias. Exemplo disso é o Hino do Centro Histórico do Porto, que começou a ganhar forma numa das edições das Rusgas de São João em que participou. “Fazer uma canção a falar de seis freguesias tão diferentes não é fácil”, confessa. A versão final do tema foi lançada em 2022, com interpretação do Coro do Centro Histórico do Porto, e teve direito a videoclipe. “Recentemente, desafiaram-me a fazer um aqui para a Bouça”, conta, entre risos.
Fado circula pelas seis freguesias do centro histórico

Há Fado na Freguesia no lar da Ordem do Carmo

Desde 2022, José Flávio Martins também circula pelas seis freguesias do centro histórico com o Há Fado na Freguesia, projeto financiado pelo Orçamento Colaborativo da UFCHP que pretende levar concertos de fado a locais onde ele normalmente não chega, como lares, centros de dia e coletividades, e em horários atípicos. “Geralmente, o fado é sempre à noite e não é muito acessível do ponto de vista económico”, considera.
Além de curador da iniciativa, José Flávio integra o elenco que interpreta a canção portuguesa, emprestando lhe a voz e as cordas da viola baixo. As sessões acontecem a meio da tarde e têm um repertório definido que vai de clássicos como Uma Casa Portuguesa, de Amália Rodrigues, e Lisboa Menina e Moça, de Carlos do Carmo, a temas originais da sua autoria, como as faixas que integraram Um Outro Fado, disco gravado com outra das suas formações, Fado Consentido. “No final dos concertos, reservamos dez minutos para que quem está a assistir também possa cantar o fado”, acrescenta.
A par da direção coral, que inclui ainda a filial do Porto do Coro dos Serviços Sociais de Portugal e das tardes de fado, José Flávio Martins realiza sessões de interação musical no Centro de Convívio de Cedofeita. Nesses dias, transforma-se numa espécie de “Pai Natal da percussão” e chega carregado com vários instrumentos que distribui pelos utentes. Depois, pega no seu ukulele e acompanha-os numa tocata praticamente livre. “As percussões também servem de fisioterapia”, observa. Ademais, a música facilita a criação de laços.
O músico dá, ainda, aulas de canto na junta de freguesia de Miragaia e de música na Ajudaris. Embora o seu quotidiano seja, maioritariamente, dedicado a projetos coletivos e comunitários, José Flávio não prescinde da vertigem dos concertos próprios. Recentemente, tocou na Bouça com os Triple X, banda de tributo aos anos 80. “Quem gosta mesmo de tocar, não consegue largar o palco”, admite.
Com um currículo vasto e uma agenda repleta, José Flávio Martins não tenciona abrandar, pelo menos enquanto a saúde lho permitir. “Quando se leva uma vida inteira a criar, nunca nada está completo.”

Fotografias © Sofia Hügens
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