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OPPIA: o espaço que eterniza em imagens a memória da cidade do Porto
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Há espaços que resistem ao tempo. Outros que fazem dele matéria-prima. Na Rua do Barão de São Cosme, a poucos metros da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, existe um lugar onde a memória da cidade continua a ser revelada em película, projetada em 8mm e guardada como um verdadeiro tesouro coletivo. Chama-se OPPIA – Oporto Picture Academy e funciona como um lugar de resistência silenciosa à pressa do digital. 

“Oppia” quer dizer “aprender” em finlandês. A OPPIA – Oporto Picture Academy celebrou duas décadas a 30 de dezembro de 2025. Foi pela mão de Cristiano Costa Pereira, à época aluno do Curso Superior de Cinema e Teatro da Escola Superior Artística do Porto, que o projeto nasceu. Apaixonado por fotografia e cinema, em especial pela filmagem em 8mm, 16mm e 35mm, decidiu criar um espaço para partilhar conhecimento, para experimentar, preservar e divulgar um património que o digital parecia querer apagar. Mais do que um espaço expositivo, a OPPIA afirmava-se como um lugar de resistência cultural. Enquanto o mundo acelerava para o digital, a OPPIA fez o caminho inverso.  

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Cristiano Costa Pereira © Guilherme Costa Oliveira

Um laboratório vivo no coração da cidade


Localizado no número 228 da Rua do Barão de São Cosme, na freguesia do Bonfim, a OPPIA é um espaço polivalente com estúdio de fotografia, galerias, sala de projeções, oficina e laboratórios. Mas, acima de tudo, é um ponto de encontro. “A ideia sempre foi esta: as pessoas virem cá numa dinâmica artística, para ver ou participar em algo que dificilmente encontram noutro sítio”, explica o fundador e diretor artístico. 


Desde o início que a formação faz parte da identidade da OPPIA. Ao longo dos anos passaram por aqui cursos e workshops pouco comuns, como fotografia pinhole, processos históricos alternativos ou cinema em Super 8mm. Muitas das imagens produzidas no espaço acabam depois expostas nas próprias galerias. 


E sim, na OPPIA ainda se pratica a mítica fotografia à la minuta. Aquelas caixas de madeira que outrora percorriam as ruas com um laboratório portátil no interior continuam vivas aqui, em workshops que recuperam técnicas quase desaparecidas. “O que fazemos, quase ninguém faz”, resume Cristiano. 

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© Guilherme Costa Oliveira

Filmes projetados para (e com) as pessoas 


Muito antes do Porto viver a atual efervescência cultural, a OPPIA já levava cinema às ruas. Entre 2003 e 2010, o projeto “Os Cantos do Super 8mm” percorreu todas as freguesias da cidade, com projeções de dezenas de filmes. O cinema saía das salas e encontrava as pessoas no seu próprio território. 


“Pouco antes de entrarmos no século XXI, o digital estava a afirmar-se e a película começou a tornar-se obsoleta. Mas nós resistimos e continuamos a realizar filmes em Super 8mm, 16mm, 35mm. Alguns dos filmes projetados foram feitos e revelados no próprio laboratório da OPPIA, outros por estrangeiros que filmavam connosco e também faziam a revelação nos nossos laboratórios. Foram sete edições, foi fabuloso! Tudo isto acontecia fora dos grandes circuitos culturais da cidade, num Porto com uma dinâmica completamente diferente da atual. Fazíamos isto com as pessoas e para as pessoas”, conta Cristiano.  

As exposições de fotografia, as sessões de cinema em formatos analógicos, os concertos, as noites de poesia e os workshops fazem hoje parte do ADN da OPPIA, sempre com a cidade como pano de fundo. 

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© Guilherme Costa Oliveira

Tesouros da memória coletiva 


Entre as paredes da OPPIA guardam-se verdadeiros arquivos da memória portuense. O espólio do fotógrafo Fernando Aroso, doado à associação, é um dos seus maiores tesouros: cerca de 80 anos de fotografia, desde os anos 30, milhares de negativos que registam o Porto em detalhe. “Batentes de portas, claraboias, varandins… um trabalho único. Este Porto já não existe”, sublinha Cristiano. 


Também fazem parte do acervo mais de duas mil capas de discos criadas por António Aroso para a editora Orfeu, já exibidas em exposições anteriores. 

No cinema, a viagem é ainda mais longa. A OPPIA guarda centenas de filmes, incluindo raridades em 9,5mm de 1918 e até um filme de 1904, feito no Porto, pertencente à histórica empresa de cinema Pathé. “O Porto é pioneiro no cinema mundial. Queremos manter viva essa história visual”, afirma. 


O sonho de voltar a fazer o Douro Filme Festival 


Outro capítulo importante da história da OPPIA é o Douro Filme Festival - Festival Internacional de Cinema Super 8mm do Porto, cuja primeira edição aconteceu em 2006. O conceito era simples e revolucionário: convidar qualquer pessoa, realizador ou não, a fazer um filme em 8mm durante o festival. A OPPIA fornecia a câmara, a película, o laboratório e a equipa. Os filmes só eram vistos no dia da estreia. “Era um risco total. Ninguém sabia o que ia acontecer. A primeira edição contou com 38 filmes a concurso, com um júri internacional de Espanha e Itália. Na segunda edição já criámos o conceito: convidávamos as pessoas a fazerem connosco um filme em 8mm”.  

Para assinalar os 20 anos da OPPIA, o desejo é claro: reativar o festival. “Temos tudo aqui para o fazer. É único, envolve os jovens e dinamiza a região”, diz. 

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Valeriy Kutepov e Costa Pereira © Guilherme Costa Oliveira

Jantares onde todos são fotógrafos improváveis 

Entre os projetos sonhados está também algo verdadeiramente fora da caixa: os “Jantares fotogramáticos”. “A ideia é simples: um jantar mensal onde a toalha da mesa é papel fotográfico. Os participantes jantam, aprendem a técnica, criam imagens diretamente sobre o papel e, no final, tudo é revelado coletivamente. As grandes fotografias resultantes transformam-se depois em exposição. Todos são artistas improváveis”, resume Cristiano. O objetivo é tornar o projeto realidade em 2026. 


O que aí vem 

Valeriy Kutepov mudou-se para a cidade do Porto há três anos e trabalha na OPPIA como curador. “Queremos trabalhar com as diferentes gerações e despertar nos mais jovens o gosto pelas diferentes artes, sem nunca perder a história e a memória”. 

Valeriy revela que este mês de fevereiro vão inaugurar uma exposição com fotografias do Porto nos anos 80 e promover um workshop de fotografia. Nos meses seguintes estão previstas exposições coletivas de pintura e fotografia, com música ao vivo, além de vários workshops, incluindo propostas pensadas para crianças e jovens. 


Na OPPIA, a memória fotográfica e a história da fotografia e do cinema, em película, prometem continuar bem vivas e resistir ao passar do tempo. 

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