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Amparo 99: o laboratório artístico onde todos encontram casa, palco e futuro
Codigo Postal Amparo99

Janeiro 2026

É na fronteira entre as freguesias do Bonfim e de Campanhã que encontramos o Amparo 99, um espaço cultural independente onde tudo parece possível. Aqui, todos os projetos artísticos e culturais encontram lugar, venham do Porto ou da China (uma referência geográfica que fará sentido mais à frente). Conversámos com dois dos sócios fundadores para conhecer de perto este lugar que se tornou sinónimo de experimentar, criar e partilhar.

O coletivo que dá vida ao Amparo 99 acaba de celebrar dois anos de existência. Dizem que não há coincidências: o projeto nasceu precisamente dois dias antes da Agenda Porto sair para as “bancas” pela primeira vez.


Visitámos o número 99 da Rua do Amparo, a poucos passos da Avenida de Fernão de Magalhães. Somos recebidos por Zhang Qinzhe, ou simplesmente Quinzé, e por Beatriz Costa. Com eles, completam o núcleo duro Luís Perdiz (Pepas), Francisco Frutuoso (Frutas), Diogo Jesus (Jesus), a performer Ana Rita Xavier e o designer Rúben Rodrigues.


A porta de entrada denuncia a filosofia da casa: na montra repousa a porta colorida de um automóvel, transformada em convite à curiosidade. Entramos, passamos pela sala do som, onde guitarras, mesas de mistura, cabos e até uma pequena televisão analógica decorada com crochê preenchem o espaço. Atravessamos o corredor e chegamos à sala principal, uma caixa negra multifuncional onde quase tudo acontece, desde noites silenciosas a noites cheias de gente.

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© Nuno Miguel Coelho

Um espaço para experimentar e arriscar


“Bem-vindo ao Amparo 99! Este é um grupo para pessoas que partilham a paixão pela música, arte, cultura e beber umas cervejas”, lê-se na descrição da associação nas redes sociais. E é, de facto, isso que ali se sente.


Zhang Qinzhe, nascido na China e radicado em Portugal desde os sete anos, chegou ao Porto depois de passar por Aveiro, Reguengos de Monsaraz e Coimbra. É licenciado em multimédia e atualmente trabalha em vídeo, luz, grafismos generativos e cenografia digital. “O Amparo 99 é um sítio de experimentação”, explica. “Aqui posso testar ideias novas, montar as coisas como quero. É, em primeiro lugar, um espaço de trabalho para artistas, que ocasionalmente abre as portas ao público.”


O coletivo tomou conta do espaço a convite do Ermo do Caos, movimento cultural que antes habitava o mesmo local. “Convidaram-nos a continuar o projeto e não hesitámos. Pareceu-nos importante não deixar este lugar morrer. Herdámos alguma da dinâmica anterior, mas o que fazemos aqui hoje já tem a nossa identidade.”

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Beatriz Costa e Zhang Qinzhe © Nuno Miguel Coelho

Beatriz Costa, ilustradora e animadora, descreve o Amparo 99 como “uma associação cultural jovem, com atividades muito

polivalentes”. E enumera: “concertos, workshops de animação e ilustração, gastronomia, noites de jogos de tabuleiro, dança, teatro, cinema, performance… não há limites”.


Para Beatriz, a maior força do Amparo é a forma como recebe quem chega, o espírito de comunidade. “O Amparo é o nosso espaço criativo. Trabalhamos aqui, convivemos, recebemos artistas em fases muito iniciais dos seus projetos. Quem vem, sente-se acolhido. Muitas vezes chegam sem saber muito bem o que procuram, e saem com uma boa impressão e com vontade de voltar.”


Além de ensaios e residências, o Amparo 99 acolhe pré-produções e experimentações que não exigem apresentação final. “Podem vir só testar, mesmo sem compromisso”, sublinha Qinzhe. “Temos equipamento para filmagem, gravação, design de luz, dramaturgia. A sala é versátil e adapta-se ao que cada artista precisa."

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© Nuno Miguel Coelho

Dar a mão aos primeiros passos


Beatriz destaca, ainda, o papel do espaço como apoio a quem está no início de uma carreira. “Muitos artistas não têm onde ensaiar. Os locais onde vão apresentar o espetáculo nem sempre conseguem acolher processos longos e isso pode ser financeiramente pesado. Aqui funcionamos como meio termo, temos condições, tempo e abertura para receber essas equipas."


O público também já sabe ao que vem: as noites de jogos de tabuleiro enchem regularmente a casa, assim como os concertos, que já chegaram a reunir mais de 60 pessoas. Mas um dos eventos mais aguardados é sempre a celebração do Ano Novo Chinês. “Começamos com um workshop onde as pessoas aprendem a fazer guiozas, desde a farinha ao prato final. Depois, a noite termina num jantar para celebrar a entrada no novo ano. Para muitos é um dos momentos mais memoráveis, uma fusão entre gastronomia, cultura e comunidade”.


Para os próximos meses, o Amparo99 prepara um ciclo de workshops dedicados ao TouchDesigner, uma ferramenta de gráficos generativos, luz e mecânica digital. O objetivo é criar uma comunidade visual no Porto. “Vamos ter três workshops e vídeo jams com artistas convidados. Cada um traz o seu projetor e transformamos a blackbox numa caixa viva de improvisação durante horas”, descreve Qinzhe.

Uma rede que cresce ao ritmo da cidade e onde as ideias se encontram e multiplicam


“Estamos a construir um público fiel, devagar, mas com consistência”, diz Quinzhe. Os artistas contactam o Amparo99 via email, por recomendação ou por procura direta do coletivo. Beatriz reforça que o Amparo 99 quer fazer parte da cidade, não apenas existir nela. “Visitamos outros espaços, conhecemos outras associações, abrimos portas. E, ao mesmo tempo, vamos sendo lembrados por quem já passou cá. Criamos uma rede de pessoas que sabem que aqui têm um lugar.”


A própria Beatriz é exemplo disso. Natural de Coimbra, passou pela Faculdade de Belas Artes do Porto e por Estocolmo, onde estudou design e comunicação visual. “Achei que seria designer, mas apaixonei-me pela ilustração e pela animação. Aqui tenho o meu escritório, cruzo-me com pessoas diferentes. Já fiz até uma performance, nunca o teria feito se não fosse este espaço e a energia daqui.”


“Convivendo uns com os outros, surgem novas ideias”, resume Qinzhe. “Candidatamo-nos a apoios juntos, desenvolvemos projetos juntos. Sozinhos seria muito mais difícil.” 


“E é isso que faz sentido numa associação cultural”, acrescenta Beatriz. “A entreajuda. A sensação de que há espaço para todos.”


O Amparo 99 é, no fim, exatamente isso: um abrigo. Um sítio onde artistas experimentam, arriscam, falham, recomeçam. Onde o Porto ganha novas vozes e onde, muitas delas, encontram, pela primeira vez, casa, palco e futuro.

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© Nuno Miguel Coelho

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