PT

Do álbum reparações na conduta adutora e muro de suporte na Rua do Freixo, 1936
Documento/Processo, 1936 – 1936
CMP/ Arquivo Histórico Municipal do Porto
O Matadouro — Centro Cultural do Porto apresentou hoje um programa de caminhadas na Zona Oriental do Porto. Todos os domingos — começando já neste dia 22, a proposta é de partir à redescoberta de uma Campanhã sempre relegada para a periferia, mas onde pulsam muitos centros de gravidade. Em cada caminhada, haverá espaço para um momento de conversa sobre aquilo que foi encontrado ao longo do percurso, sempre com espaço para os participantes contribuirem com aquilo que viram. A Agenda Porto falou com o coordenador do projeto, João Covita, e com o Vereador da Cultura, Jorge Sobrado, sobre com que ferramentas se desenha uma cartografia histórica e emocional.
Agenda Porto: Todos os caminhos têm um início — como começaram os Caminhos a Oriente?
Jorge Sobrado: Os Caminhos a Oriente nasceram de uma coincidência entre dois impulsos. O primeiro impulso foi o de querermos replicar uma experiência feliz que o Porto teve em 2001, quando faz nascer os Caminhos do Romântico. E o Porto foi feliz nesses Caminhos do Romântico na medida em que resgatou de uma invisibilidade uma paisagem de encantamento que, de alguma forma, se escondia da cidade, formada pelos interstícios das quintas e das zonas mais rurais do Vale de Massarelos, objeto de múltiplas transformações relacionadas com a indústria, com a habitação e, sobretudo, com as acessibilidades rodoviárias. Portanto, o primeiro impulso era o de voltar a ser feliz com um mapa que nos devolve uma paisagem e um sentimento. Quando iniciei funções na Câmara Municipal queria replicar esse impulso na parte oriental da cidade, e dei-me conta que essa ideia estava já a ser formada e a germinar na Direção das Convergências, pela mão do João Covita, como um projeto que assentava numa espécie de inquérito humano, de recuperação da memória e da transformação da paisagem.

Jorge Sobrado subllnha o "caminhar como um processo de rememoração" de partes ocultas da cidade © Guilherme Costa Oliveira
AP: Além desses pontos de contacto, o que diferencia os Caminhos a Oriente dos Caminhos do Romântico?
João Covita: Os Caminhos do Romântico são uma pré-existência incontornável, em que eu tive a felicidade também de colaborar em 2022, numa tentativa de reativação. Mas olhando para a cidade de então, em 2001, e para a maneira como o projeto foi realizado e conduzido pela arquiteta Graça Nieto, reconhecemos um território que tem de facto muitas semelhanças com Campanhã e a Zona Oriental da cidade. Contém o Porto romântico e encontramos as marcas da indústria, existem os caminhos da água e os aspetos da ruralidade, e existem também os seus interstícios e invisibilidades, como disse o Jorge, também os seus “não-lugares”. Contudo, os elementos que existem em comum com o Vale de Massarelos são exponenciados no Vale de Campanhã, considerando também que este território é muito mais vasto. Está também intersecionado por múltiplas vias, ferroviárias, rodoviárias, o metro... é um desafio para quem quer caminhar naquela zona da cidade. Nós vamos começar o percurso inaugural justamente debaixo da VCI, na Fonte de Nossa Senhora de Campanhã — logo aí já há diferenças: estamos para lá do Terminal Intermodal de Campanhã, para lá da linha férrea, uma espécie de “para lá” do centro da cidade — mas esse início não deve ser entendido como uma entrada na periferia… Ou seja, o projeto quer assumir a centralidade das pessoas que vivem em Campanhã. Porque para as pessoas que lá vivem, aquele é o centro — o centro do seu mundo, e o centro da sua memória.

João Covita, coordenador do projeto Caminhos a Oriente e previamente envolvido nos Caminhos do Romântico, ressalva que "os elementos que existem em comum com o Vale de Massarelos são exponenciados no Vale de Campanhã" © Guilherme Costa Oliveira

Festa de Nossa Senhora de Campanhã, 1996
Aspeto da festa no adro da igreja Paroquial de Campanhã
Arquivo Hélder Pacheco
CMP/ Arquivo Histórico Municipal do Porto

Trabalho de campo (Azevedo)
© Grupo de Trabalho Caminhos a Oriente
AP: E em que medida é que um caminho pode servir como recuperação de memória?
JS: O caminhar é muito interessante como um processo de rememoração. Há investigações ligadas à neurologia e à filosofia que indicam haver uma correspondência, ou fenómeno de mútua alimentação, entre o caminhar e a memória. E este projeto, tal como me foi apresentado, e que de alguma forma respondia ao meu impulso de criar um resgate de lugares a Oriente, assentava na ideia de um inquérito feito a caminhar. Não se trata de monumentalização da cidade. É um caminho que é feito por muitos passos, muitas pessoas. É uma mistura de ato social, ato político e também ato cultural.
AP: Esse ato cultural diz-nos algo sobre o futuro Matadouro — Centro Cultural do Porto?
JS: Há aqui um pilar — estes Caminhos a Oriente são tão importantes para o projeto cultural do Vale da Zona Oriental como o Matadouro em si. Estes caminhos terão, talvez, uma dimensão mais reticulada, mais distribuída — que depois seguramente se casará com o Matadouro, até porque esse espaço tem uma forte memória naquela zona da cidade.
JC: O Matadouro será sempre uma âncora e os Caminhos a Oriente vão seguramente passar por lá. Aliás, está a ser trabalhado, posso adiantar, um caminho em torno do Matadouro, não só pela sua memória industrial, mas pelo ponto de vista da identidade que aquela infraestrutura aportou ao gerar dinâmicas laborais e sociais naquela zona. Refiro-me não só a bairros operários, e aos vários modelos ensaiados e implementados de habitação social, que é também um dos importantes aspetos que vêm a marcar a paisagem desta zona da cidade.
AP: Mesmo com o novo Matadouro já inaugurado, este projeto seria sempre fora de portas, pela sua natureza.
JC: Acho que é expressivo, até simbólico, que o primeiro projeto cultural com programação pública regular do Matadouro — Centro Cultural do Porto seja um programa que não decorre dentro deste, mas que acontece com ele e à sua volta. E acho que isso é uma expressão muito importante de um caminho, lá está, que o próprio Matadouro poderá fazer. Este contacto mais direto e comprometido com as populações, com as criações que estão a ser feitas também naqueles lugares.

© Guilherme Costa Oliveira
AP: A cada caminhada é atribuído um de três eixos programáticos. Como será o foco de cada um?
JC: Para cada um destes três eixos convidamos um curador. E quisemos que a proposta fosse começar com mais perguntas do que certezas: Como se assentam caminhos? foi o mote. Depois o projeto propõe, de facto, um eixo “Povoamento — Territórios Transformados”, um eixo “Criação — Territórios Imaginados” e um eixo “Identidade — Territórios Vividos”. Achamos que é uma constelação interessante e que pode promover muitas outras ramificações. Diria que a forma — até para fazer uma analogia geográfica — como o projeto se pensa é num delta: há um caudal inicial que evolui em deltas sucessivos. Isto porque os responsáveis pelo programa convidam três curadores que, por sua vez, convidam mais nove vozes para poder pensar o território. E essas nove vozes estão implicadas, de certa forma, a convidar e a integrar as micro comunidades e as populações — queremos potenciar essas relações.
AP: E em que é que vai desaguar o delta do projeto?
JC: No final deste ano de programa, o projeto propõe fixar num livro, de uma forma documental e crítica, o que é que foram estes percursos todos. Para que, como dizia o Jorge, se desocultem aspetos do território, sejam eles aspetos humanos, aspetos artísticos, ou aspetos identitários, usando o corpo e o movimento como sismógrafo do território.

© Guilherme Costa Oliveira
AP: Portanto, quem tiver interesse em juntar-se a estas caminhadas, não deverá estar à espera de um roteiro clássico com um orientador e aqueles que o seguem?
JS: Esse processo de caminhada é um processo de inquérito, é um processo também de rememoração de vivências, de experiências do território. Talvez este mapa seja mais de vivências e de afetos, ou de afetividades, e menos da monumentalidade dos caminhos. Se há uma monumentalidade nos caminhos é, sobretudo, humana. E, portanto, a metodologia que está a ser definida com estes curadores é que eles não façam uma espécie de trabalho de gabinete, num inventário solipsista, numa torre de marfim. Vamos caminhar antes de haver mapa — vamos desenhar o mapa caminhando.
AP: E o que pode esperar quem participa nestes caminhos?
JS: Conhecer um Porto invisível, um Porto que está de alguma forma oculto pelas grandes transformações urbanas da cidade, a que a zona oriental foi mais exposta, até pelas razões que há pouco o João evocava, da indústria, das acessibilidades, da ferrovia. A zona ocidental foi um pouco mais protegida, um pouco mais poupada que zona oriental, que foi sujeita a quase tudo e onde as camadas de ocultação são mais densas. Quem participar vai ser surpreendido por um Porto que é um pouco arrabalde de si mesmo — uma zona onde pulsa muita humanidade.
AP: Caminhos do Oriente assume aqui o selo da plataforma Malha. Em que medida é que estes dois projetos se tocam?
JS: É precisamente nesse pulsar humano que este projeto assenta como uma luva no programa “Malha — Porto, património de pessoas”. Quisemos falar de um património de pessoas, não de um património eloquente, altissonante, intocável, do edificado. Por outro lado, o Malha, evocando o Centro Histórico de Porto, assinala também que nenhum centro sobreviveu sem as demais geografias da cidade. Aquilo que o centro histórico é hoje, deve-o muito aos outros modos de viver e de habitar a cidade que foram sendo desenvolvidos nas suas geografias circundantes. Modos de viver que o alimentaram e que o salvaram, de certo modo — da sua insalubridade, da sua inviabilidade, e da sua própria autodestruição. Os Caminhos a Oriente vão integrar o programa Malha, lembrando que o património é sobretudo uma coisa humana e imaterial, e menos uma coisa de pedras.
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