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Estar entre os artistas convidados pelos Animal Collective para atuar num festival na Europa é, certamente, uma forma de entrar com estrondo na cena indie internacional. Mais ainda se tens apenas 19 anos e um único EP autopublicado. Em 2022, quando a banda integrou a curadoria do Le Guess Who, nos Países Baixos, foi o que aconteceu a Anastasia Coope.
Ao ruidoso debutar seguiram-se atuações nas primeiras partes dos concertos de uma digressão europeia de Avey Tare, vocalista dos Animal Collective, que dizia que a folk experimental de Coope dá a ideia de estar “isolada num lugar especial, talvez sobrenatural, mas também parece enraizada no aqui e no agora”. Uma ideia que a cantora explora numa breve conversa à distância com a Agenda Porto, instantes antes de subir a um palco em Paris. Na sua procura criativa pelo "culminar perfeito", afirma estar sempre a tentar afastar-se "de ser particularmente influenciada por algo determinado". A sua aspiração, diz, é sintetizar aquilo que lhe interessa “numa invenção própria”, em “algo totalmente novo”.
Foi durante o confinamento da COVID-19 que a jovem crescida em Cold Spring — pequena localidade do Vale do Hudson, no estado de Nova Iorque —, se iniciou na exploração sonora com ferramentas como o Garage Band, sem se dissociar das suas áreas artísticas de formação, a pintura e o desenho. Enquanto há quem descreva as suas canções como escultóricas, ela confidencia-nos que está “sempre a pensar visualmente ao compor”.
Para “tentar traduzir de modo sonoro uma representação visual da vida ”, Anastasia Coope serve-se de técnicas que já foram comparadas à colagem ou à pintura minimalista, em que a sua voz, sobreposta em diferentes camadas, funciona mais como instrumento do que como veículo de mensagens. Algo que nos confirma: “sinto que as letras existem apenas para eu as transformar em som”.
A autora admite mesmo que, apesar de poder "compor à guitarra, ao piano ou com outros instrumentos", as suas “ideias geralmente começam com o canto”, pois “a voz está mais facilmente disponível”. Explica também que as músicas publicadas frequentemente “incluem as primeiras ideias e as primeiras gravações” e que são criadas sob um “véu de abstração que torna mais fácil a partilha com o público”. Mais do que pensar em escrever uma canção sobre determinado tema, revela-nos que, na maioria das vezes, assume “o papel de diferentes personagens”.
Apesar do método criativo íntimo, a compositora admite à Agenda Porto que a sua música, marcada pela sobreposição e a repetição, “às vezes pode ser muito dispersa”. Conta que gosta “de externalizar” um “processo de pensamento” que consiste em “ter uma ideia, executá-la ou pensar nela uma e outra vez, e reescrevê-la”. Algo que “começa por ser conveniente e depois se torna mais hipnótico”. Como as frases simples que se ouvem nas canções e vão ganhando peso distinto à medida que os loops se multiplicam e intercalam.

Anastasia Coope | © Ellie Hoffman

Anastasia Coope | © Paper Magazine
Sobre as suas influências, encontrámos em entrevistas anteriores referências a Brigitte Fontaine e a Nico, ícones dos anos 60 e 70, ou a nomes anteriores, como Pete Seeger, The Everly Brothers ou The Chordettes, mas também a bandas mais recentes, fossem os Broadcast, Black Dice ou Clinic. Há ainda alusões a Enya, que lhe foi mostrada pela sua avó, ou à música coral medieval e à música litúrgica, bem como à pintura impressionista ou ao cinema francês. Mas Coope já sublinhou mais do que uma vez que tais “influências parecem estar mais profundamente enraizadas na ideologia do que na música”, ou seja, que mais do que estéticas ou técnicas, lhe interessam as formas de pensar e se posicionar dos artistas.
Um ano após o primeiro apadrinhamento famoso, foi a vez de outro nome se focar nas paisagens sonoras de Anastasia Coope. Angus Andrew, vocalista dos Liars, publicou-lhe na sua editora No Gold o sete-polegadas Tough Sun. Até que, em maio de 2024, saía finalmente o álbum de estreia norte-americana, Darning Woman, lançado pela Jagjaguwar, selo que tem no seu catálogo artistas como Angel Olsen, Bon Iver, Dinosaur Jr., Jamila Woods ou Unknown Mortal Orchestra. Foi também nesse ano que a cantora, entretanto mudada para Brooklyn, se apresentou pela primeira vez ao vivo em Portugal, no festival Mucho Flow, em Guimarães.
Depois de em novembro do ano passado lançar DOT, um EP com seis novos temas, a jovem de 23 anos regressa esta semana a Portugal para uma atuação em Aveiro, na sexta-feira, e outra no Porto, marcada para as 18h45 de sábado, 28 de fevereiro, no espaço da editora Lovers & Lollypops. Em palco terá ao seu lado mais um peso-pesado, que a tem acompanhado nesta pequena digressão pelo nosso continente: o baterista e percussionista Moses Archuleta, um dos fundadores dos Deerhunter.
"Acho sempre que o público europeu se interessa de forma mais imediata pela minha música do que o americano. Adoro conhecer novos lugares e tenho a sorte de ter um agente na Europa que me arranja espetáculos realmente interessantes e não-convencionais."

Capa do primeiro álbum da cantora, lançado em 2024 | © Jagjaguwar
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