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Fotografia: Jorge Costa
Seis anos, sete temporadas e mais de uma centena de mulheres artistas depois, Vanessa Augusto decidiu que era hora de abrir o microfone do podcast Femina aos homens. “Para continuar a construir um mundo mais feminista, justo, consciente e saudável, é preciso chegar a todas as pessoas, e isso inclui os homens”, introduz a jornalista, que se juntará ao músico Luca Argel para a gravação de um episódio ao vivo, no domingo, Dia Internacional da Mulher, às 16h00, na Livraria da Cassandra.
A conversa, que acontece a pretexto da dupla celebração do 8M e do sexto aniversário do podcast, serve de montra para Aliados Femina, a temporada especial que convida seis nomes da cena cultural portuguesa a refletir sobre os seus percursos, masculinidades e o seu contributo para um feminismo mais justo. “Houve uma tentativa de perceber o que é o que homens pensam sobre o feminismo e a sua própria vulnerabilidade, e o que têm feito nesse sentido.”
Luca Argel é o convidado do último episódio a ser gravado — a temporada ficará disponível na íntegra no dia 8 em femina.pt —, mas foi o primeiro a ser desafiado para esta reflexão. “Eu tinha ouvido o disco dele [Um Homem Triste, 2026, obra que incide sobre as diversas masculinidades] e percebi que ele já está num ponto de desconstrução exemplar”, considera Vanessa Augusto. “Acho que temos muito a aprender com ele.”
A par de Luca Argel, a autora do Femina convocou para o debate o autor e ilustrador António Jorge Gonçalves, o músico Manel Cruz, os atores João Reis e Rui Maria Pêgo, e José Nunes, fundador da companhia Estrutura e diretor artístico do Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery. “Tentei diversificar o campo artístico, abranger várias gerações, incluir outras perspetivas [de sexualidade, género e identidade] como a queer e imigrante; no fundo, ir além do olhar do homem branco cisgénero e heterossexual”, elabora.
Para a podcaster, foi fulcral incluir uma figura da programação cultural, como é o caso de José Nunes, para que pudesse falar a partir do “lugar de poder” que é estar à frente da direção artística de um teatro municipal e abordar “o que é que está a ser feito ou pode ser feito [neste âmbito]”.
Rejeitando moralismos, a Aliados Femina posiciona-se, essencialmente, como um espaço de escuta e partilha cujo âmago está espelhado na contracapa do livro A Reinvenção da Masculinidade: Homens e Feminismo, de Joseph M. Armengol, uma das referências da jornalista para conceber a temporada: “A questão não é (apenas) a que privilégios devem os homens renunciar em nome do feminismo, mas (também) o que podemos ganhar com a nossa participação ativa nele.”
Ao longo destas conversas, “estes homens permitem-se a ter, muitos pela primeira vez em público, um discurso que não é toxicamente masculino e não está ligado a questões que envolvem a agressividade, o poder e outros mecanismos do patriarcado”.

Jorge Costa

Jorge Costa
Paralelamente, o processo de gravação foi revelador de uma “vontade destes homens em ter um espaço seguro onde pudessem falar sobre estes assuntos e dizer, sem vergonha e sem julgamento, quem é que são nesta fase da vida.”
Ao longo do seu percurso, o Femina já saltou várias vezes do estúdio para uma sala com público, acumulando parcerias com eventos e espaços culturais como o Festival DDD — Dias da Dança, as Inaugurações Simultâneas de Miguel Bombarda ou o Podcast à Mesa do Maus Hábitos. “É muito interessante fazer isto ao vivo, porque a partilha é coletiva e pode haver um maior elemento de ação.”
Apesar da batalha, por vezes, solitária de fazer o podcast do início ao fim, contando apenas com investimento pessoal de tempo e recursos, Vanessa Augusto mantém a ingenuidade e o sentido de missão do primeiro dia. “Se pelo menos uma pessoa ouvir e parar para pensar, já valeu a pena.”
Em seis anos, o Femina teve um crescimento exponencial e afirmou-se como um dos mais relevantes podcasts culturais em Portugal. Atualmente, a autora conta com patrocínios pontuais, mas ambiciona voos maiores. “O meu sonho é tornar o Femina numa associação cultural com uma estrutura profissional e uma equipa”, revela.
Até lá, continuará a dar voz a mulheres artistas – e, esporadicamente, a homens – que queiram partilhar as suas conquistas e vulnerabilidades.
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