A palavra “borda” deriva do verbo “bordar”, que significa enriquecer, decorar, embelezar, elaborar. No entanto, há ainda um outro significado da palavra: fronteira, limite, margem, beira, barreira. Existem fronteiras geográficas e políticas, por vezes representadas por muros, arame farpado, sebes, postos de controlo e portões. Um lugar intermédio, para ninguém e para todos, para quem chega, quem parte e quem fica. Aqui e ali, início e fim, em algum lugar e em lugar nenhum. Quem tem permissão para atravessar? Quem permanece? Quem será impedido de entrar? Quem pertence e quem não pertence? Quem tem direito a existir? Os territórios podem também ser demarcados por movimentos nómadas e por uma mistura de elementos, físicos e simbólicos: identidades culturais específicas, cheiros, sons, línguas, rituais, estratégias e conhecimentos distintos de sobrevivência, formas de gerir florestas e plantas. Como podemos trabalhar a partir de uma realidade entrelaçada com linhas visíveis e invisíveis, que marcam os limites entre medo e esperança, entre ruído e silêncio, enchente e fogo? Como podemos trazer connosco a terra das nossas visões, desejos, memórias e futuros? Talvez seja possível, paciente e laboriosamente, tecer um lugar poroso de alteridade fluida, um bordado onde as margens se movem, flutuam e dançam. — Lia Rodrigues