“Concebamos um enredo que nos traga tais desgraças/ que provoquem nos vindouros o espanto.” Experimental e crua, Titus Andronicus (peça escrita entre 1589-91, publicada pela primeira vez em 1594) traz em si o embrião de todas as futuras tragédias de Shakespeare. Na história de Titus, o general que regressa a Roma após o triunfo contra os Godos, nas sangrentas lutas pelo trono, na indistinção entre civilização e barbárie, na decadência moral e política, os encenadores Cátia Pinheiro & José Nunes reconhecem uma “atualidade assustadora”. Mais do que uma reinterpretação da obra de Shakespeare, propõem um olhar crítico sobre o modo como os mecanismos de poder, de vingança e de desumanização permanecem ativos, e até naturalizados, na sociedade contemporânea. O seu Titus traz o lastro do presente, das guerras que assolam os nossos dias, da desassombrada banalização com que encaramos a violência. “Ó doce Vingança, vou agora ter contigo.”