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Não existe futuro sem reaprender a cultivar relação…
Esta exposição propõe um jardim que não se encerra num white cube de exposição, mas que se estende pela cidade como campo expandido.
As peças de R. Gritto distribuem-se como sementes num território relacional, ativando um mapa–circuito de possibilidades.
Ver torna-se deslocar-se. Caminhar torna-se pensar.
O ponto de partida é a Serpente - Galeria de Arte Contemporânea, na Rua Miguel Bombarda, artéria onde galerias, oficinas e vitrines constroem um ecossistema cultural singular. Aqui, o jardim é tensão entre interior e exterior, entre organismo e dispositivo técnico. A serpente é metáfora de continuidade: aquilo que se move, que liga, que nunca termina numa fronteira.
Do interior da galeria, o mapa convida à expansão. O percurso conduz aos Jardins do Palácio de Cristal. Ali, o jardim histórico, desenhado como paisagem contemplativa, torna-se contraponto. A vista sobre o Douro recorda que toda paisagem é construção cultural, como nos ensinou W. J. T. Mitchell: ver é enquadrar.
O jardim não é natureza pura; é mediação.
Seguindo o circuito, o visitante encontra o Museu Nacional Soares dos Reis.
No interior do museu, a tradição ecoa a reflexão de Rosalind Krauss sobre o “campo expandido”: a obra já não pertence apenas ao pedestal. Ela prolonga-se no território, infiltra-se na cidade, dissolve fronteiras disciplinares.
A poucos minutos, a gruta na Rua da Maternidade 86 surge como heterotopia urbana, um intervalo inesperado entre fluxos quotidianos. Aqui, o pensamento de Michel Foucault ressoa: existem espaços outros, fissuras no tecido regular da cidade. A gruta é um desses lugares útero mineral, dobra geológica, jardim subterrâneo.
O percurso atravessa ainda o Jardim da Maternidade, onde a ideia ganha dimensão simbólica. Gerar, cuidar, acompanhar crescimento, o jardim como metáfora biopolítica e ecológica. Como escreveu Henri Lefebvre, o espaço é produzido pelas relações que o atravessam. Cada banco, cada árvore, cada sombra é inscrição social.
Entre estes pontos, a Rua Miguel Bombarda funciona como rizoma: eixo que conecta, distribui, multiplica entradas. O circuito não é linear. É serpenteante. O visitante escolhe a ordem, o tempo, o ritmo. Cada trajeto cria uma exposição distinta.
As peças de R. Gritto, dispersas, dialogantes, interdependentes, comportam-se como organismos num ecossistema urbano. Algumas aproximam-se da tecnologia; outras evocam matéria bruta, mineral ou vegetal.
Todas insistem numa pergunta comum: onde termina o natural e começa o artificial?
Aqui, ecoa Timothy Morton: não existe natureza exterior a nós. O jardim expandido assume essa condição híbrida. Cabos, raízes, sensores, pedras, luz, respiração, tudo participa do mesmo campo.
O mapa–circuito apresentado nesta folha não é apenas guia. É dispositivo conceptual. Ele propõe uma coreografia espacial onde, como diria Maurice Merleau-Ponty, o espaço se constitui na experiência do corpo. O visitante não observa apenas obras: ativa relações.
TECHNORGANKRAFT 3 inscreve-se, assim, numa tradição que vai dos primeiros jardins murados da Mesopotâmia às práticas contemporâneas que cruzam arte, ecologia e tecnologia. Mas desloca-a para o presente urbano do Porto, onde museu, jardim, rua e gruta deixam de ser categorias isoladas.
Tudo é campo.
Tudo é potencial jardim.
Tudo é relação em cultivo.
Não existe futuro como projeção abstrata. Existe apenas o que somos capazes de ligar, cuidar, transformar. E talvez, ao percorrer este circuito, compreendamos que a cidade não é o oposto do jardim. É o seu prolongamento crítico. Porque, no fim, permanece a convicção que orienta esta exposição: não existe futuro sem reaprender a cultivar relação.
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Não existe futuro sem reaprender a cultivar relação…
Esta exposição propõe um jardim que não se encerra num white cube de exposição, mas que se estende pela cidade como campo expandido.
As peças de R. Gritto distribuem-se como sementes num território relacional, ativando um mapa–circuito de possibilidades.
Ver torna-se deslocar-se. Caminhar torna-se pensar.
O ponto de partida é a Serpente - Galeria de Arte Contemporânea, na Rua Miguel Bombarda, artéria onde galerias, oficinas e vitrines constroem um ecossistema cultural singular. Aqui, o jardim é tensão entre interior e exterior, entre organismo e dispositivo técnico. A serpente é metáfora de continuidade: aquilo que se move, que liga, que nunca termina numa fronteira.
Do interior da galeria, o mapa convida à expansão. O percurso conduz aos Jardins do Palácio de Cristal. Ali, o jardim histórico, desenhado como paisagem contemplativa, torna-se contraponto. A vista sobre o Douro recorda que toda paisagem é construção cultural, como nos ensinou W. J. T. Mitchell: ver é enquadrar.
O jardim não é natureza pura; é mediação.
Seguindo o circuito, o visitante encontra o Museu Nacional Soares dos Reis.
No interior do museu, a tradição ecoa a reflexão de Rosalind Krauss sobre o “campo expandido”: a obra já não pertence apenas ao pedestal. Ela prolonga-se no território, infiltra-se na cidade, dissolve fronteiras disciplinares.
A poucos minutos, a gruta na Rua da Maternidade 86 surge como heterotopia urbana, um intervalo inesperado entre fluxos quotidianos. Aqui, o pensamento de Michel Foucault ressoa: existem espaços outros, fissuras no tecido regular da cidade. A gruta é um desses lugares útero mineral, dobra geológica, jardim subterrâneo.
O percurso atravessa ainda o Jardim da Maternidade, onde a ideia ganha dimensão simbólica. Gerar, cuidar, acompanhar crescimento, o jardim como metáfora biopolítica e ecológica. Como escreveu Henri Lefebvre, o espaço é produzido pelas relações que o atravessam. Cada banco, cada árvore, cada sombra é inscrição social.
Entre estes pontos, a Rua Miguel Bombarda funciona como rizoma: eixo que conecta, distribui, multiplica entradas. O circuito não é linear. É serpenteante. O visitante escolhe a ordem, o tempo, o ritmo. Cada trajeto cria uma exposição distinta.
As peças de R. Gritto, dispersas, dialogantes, interdependentes, comportam-se como organismos num ecossistema urbano. Algumas aproximam-se da tecnologia; outras evocam matéria bruta, mineral ou vegetal.
Todas insistem numa pergunta comum: onde termina o natural e começa o artificial?
Aqui, ecoa Timothy Morton: não existe natureza exterior a nós. O jardim expandido assume essa condição híbrida. Cabos, raízes, sensores, pedras, luz, respiração, tudo participa do mesmo campo.
O mapa–circuito apresentado nesta folha não é apenas guia. É dispositivo conceptual. Ele propõe uma coreografia espacial onde, como diria Maurice Merleau-Ponty, o espaço se constitui na experiência do corpo. O visitante não observa apenas obras: ativa relações.
TECHNORGANKRAFT 3 inscreve-se, assim, numa tradição que vai dos primeiros jardins murados da Mesopotâmia às práticas contemporâneas que cruzam arte, ecologia e tecnologia. Mas desloca-a para o presente urbano do Porto, onde museu, jardim, rua e gruta deixam de ser categorias isoladas.
Tudo é campo.
Tudo é potencial jardim.
Tudo é relação em cultivo.
Não existe futuro como projeção abstrata. Existe apenas o que somos capazes de ligar, cuidar, transformar. E talvez, ao percorrer este circuito, compreendamos que a cidade não é o oposto do jardim. É o seu prolongamento crítico. Porque, no fim, permanece a convicção que orienta esta exposição: não existe futuro sem reaprender a cultivar relação.
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