A segunda performance de ALMORADA transporta-nos para um mergulho assumido no surrealismo, não como rótulo histórico, mas como força viva: um gesto poético de resistência contra a asfixia política e cultural. Neste trajeto, revisitamos as vozes femininas que dialogaram com a constelação surrealista portuguesa — muitas vezes secundarizadas na narrativa dominante — como Isabel Meyrelles, Luíza Neto Jorge e Natália Correia, mas também Ana Hatherly, Maria Teresa Horta ou Salette Tavares. A improvisação e a exploração sonora, marcas identitárias de ALMORADA, tornam-se dispositivos surrealistas: zonas de risco onde a palavra se desorganiza para se reinventar, onde o som pode anteceder o sentido e onde o acidental se transforma em revelação. ALMORADA afirma, assim, o surrealismo como prática viva: não museológica, mas urgente, um gesto de desobediência sensível e uma tentativa de imaginar outros mundos possíveis, levando-nos para lugares onde a imaginação pode ainda rasgar fendas naquilo que chamamos realidade.