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[Serralves] - PAUTAS (2024) | SILVESTRE PESTANA & SUPERNOVA ENSEMBLE
Pautas (2024), de Silvestre Pestana & Supernova Ensemble
Uma abordagem transdisciplinar às obras de 1975
[Serralves] - PAUTAS (2024) | SILVESTRE PESTANA & SUPERNOVA ENSEMBLE

Em 1975, Silvestre Pestana encontrava-se a residir em Londres, isto após quatro anos de exílio em Estocolmo. Em Portugal, este era o ano do "verão quente", da extrema instabilidade e tensões governativas que se seguiram à queda de um regime ditatorial com 48 anos pela força da revolução do 25 de Abril de 1974. As batalhas travavam-se agora sobre o que fazer com (e em nome da) liberdade conquistada.


Foi também em 1975 que Pestana criou um conjunto de 20 obras gráficas a que deu o título de Pautas. Em cada uma destas Pautas, encontramos um conjunto de elementos - na sua maioria formas geométricas intensamente cromáticas, mas também algumas imagens fotográficas e fonemas - sobre uma base de papel milimétrico e, em todos elas, numa margem, um sistema referencial cromático. 


Na construção destas pautas cruzaram-se várias referências como sejam: o elementarismo expressionista ou mesmo espiritual na abordagem às formas e à cor na escola da Bauhaus de Johannes Itten ou em Vasily Kandinsky; a sistematização e investigação cromática realizada por cientistas como Michel Eugène Chevreul, muito em resposta às necessidades da indústria têxtil francesa; os estrados luminosos das discotecas em Londres onde luzes coloridas vindas do chão iluminavam os corpos na pista de dança; ou o conceito "more is less" (o máximo de informação com o mínimo de meios) materializado no chip e mantido por um certo movimento minimalista reducionista na arte. 

O suporte para as Pautas foi encontrado nas papelarias de Londres: o papel milimétrico. Este definia, desde logo, duas dimensões (x, y) e permitia uma ilusão de tridimensionalidade e movimento para formas gráficas intensamente cromáticas que lhe eram sobrepostas. O papel milimétrico concêntrico apontava para a profundidade, o triangular para um movimento direcional. Algumas destas formas gráficas abundavam na paisagem quotidiana, nomeadamente na identidade e propaganda dos novos partidos políticos então formados. E, enquanto estas formas interrogavam a possibilidade do significante se libertar do significado, os fonemas que as pontuavam apontavam para os desafios inscritos nos ideais de um "povo" que quebrava a casca do "ovo" para renascer, movido pela vontade de abraçar uma visão livre.  


Em 1975, as Pautas problematizavam a realidade de uma "liberdade" recém-conquistada. A ironia que atravessava este conjunto de pautas sem instruções de leitura estava, simultaneamente, na interrogação da possibilidade de liberdade, e no questionamento do desejo que a reclamava. A sua aparente simplicidade compreendia grandes complexidades, que hoje ecoam com especial força em tempos da expansão da Inteligência Artificial, uma inteligência essencialmente abstrata e "livre". 


Uma primeira revisitação das Pautas num sentido criativo foi proposta em 2022 a Silvestre Pestana e experimentada por Pedro Rocha ao longo de uma semana de residência e um concerto com uma orquestra informal de música improvisada de alunos da École Nationale Supérieure d'Arts na Villa Arson em Nice, a L'Orchestre Inharmonique de Nice. Aqui explorou-se a possibilidade destas "pautas" se poderem transformar em pautas musicais gráficas, simultaneamente introduzindo na equação uma outra presumida liberdade: aquela teorizada por John Cage e que advogava que as partituras gráficas poderiam libertar o intérprete.


Em 2024, e tendo como pano de fundo as celebrações do 50.º aniversário do 25 de Abril, uma segunda revisitação das Pautas é proposta por Pedro Rocha a Silvestre Pestana, desta feita entregando-as nas mãos do SuperNova Ensemble, um coletivo português de geometria variável e multidisciplinar liderado pelos músicos João Dias e José Alberto Gomes, com a intenção de se criar um espetáculo a ser estreado em Serralves. Nesta revisitação temos, por um lado, a propriedade da reativação de uma obra pertencente à coleção do Museu de Serralves, e por outro o interesse de Silvestre Pestana em se encontrar com recetores criativos da sua obra, com o ruído implicado nesse processo e em tornar-se agora, ele próprio, um recetor.


Em Pautas, 2024, a proposta é a de uma abordagem transdisciplinar à série de trabalhos de 1975 que envolve, não apenas a criação musical, mas também uma leitura visual densa, de interpretação logarítmica, com base em médias estatísticas, tal como nos é dada pelo processamento pela Inteligência Artificial. O layout padronizado das Pautas de 1975, mais próximo do tipográfico (e das partituras musicais), encontra a leitura das novas tecnologias. O "ver para ler" encontra o "ler para ver". E o público é convidado a subir a um palco e habitar um lugar onde se materializa esta encruzilhada. 


As Pautas são, em 1975 e hoje, um trabalho sobre sistemas humanos e tecnológicos de manipulação.


Silvestre Pestana e Pedro Rocha

01
Mai
14
Set
2026-05-01T19:00:00Z
2026-09-14T00:00:00Z
Serralves
Auditório do Museu

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Em 1975, Silvestre Pestana encontrava-se a residir em Londres, isto após quatro anos de exílio em Estocolmo. Em Portugal, este era o ano do "verão quente", da extrema instabilidade e tensões governativas que se seguiram à queda de um regime ditatorial com 48 anos pela força da revolução do 25 de Abril de 1974. As batalhas travavam-se agora sobre o que fazer com (e em nome da) liberdade conquistada.


Foi também em 1975 que Pestana criou um conjunto de 20 obras gráficas a que deu o título de Pautas. Em cada uma destas Pautas, encontramos um conjunto de elementos - na sua maioria formas geométricas intensamente cromáticas, mas também algumas imagens fotográficas e fonemas - sobre uma base de papel milimétrico e, em todos elas, numa margem, um sistema referencial cromático. 


Na construção destas pautas cruzaram-se várias referências como sejam: o elementarismo expressionista ou mesmo espiritual na abordagem às formas e à cor na escola da Bauhaus de Johannes Itten ou em Vasily Kandinsky; a sistematização e investigação cromática realizada por cientistas como Michel Eugène Chevreul, muito em resposta às necessidades da indústria têxtil francesa; os estrados luminosos das discotecas em Londres onde luzes coloridas vindas do chão iluminavam os corpos na pista de dança; ou o conceito "more is less" (o máximo de informação com o mínimo de meios) materializado no chip e mantido por um certo movimento minimalista reducionista na arte. 

O suporte para as Pautas foi encontrado nas papelarias de Londres: o papel milimétrico. Este definia, desde logo, duas dimensões (x, y) e permitia uma ilusão de tridimensionalidade e movimento para formas gráficas intensamente cromáticas que lhe eram sobrepostas. O papel milimétrico concêntrico apontava para a profundidade, o triangular para um movimento direcional. Algumas destas formas gráficas abundavam na paisagem quotidiana, nomeadamente na identidade e propaganda dos novos partidos políticos então formados. E, enquanto estas formas interrogavam a possibilidade do significante se libertar do significado, os fonemas que as pontuavam apontavam para os desafios inscritos nos ideais de um "povo" que quebrava a casca do "ovo" para renascer, movido pela vontade de abraçar uma visão livre.  


Em 1975, as Pautas problematizavam a realidade de uma "liberdade" recém-conquistada. A ironia que atravessava este conjunto de pautas sem instruções de leitura estava, simultaneamente, na interrogação da possibilidade de liberdade, e no questionamento do desejo que a reclamava. A sua aparente simplicidade compreendia grandes complexidades, que hoje ecoam com especial força em tempos da expansão da Inteligência Artificial, uma inteligência essencialmente abstrata e "livre". 


Uma primeira revisitação das Pautas num sentido criativo foi proposta em 2022 a Silvestre Pestana e experimentada por Pedro Rocha ao longo de uma semana de residência e um concerto com uma orquestra informal de música improvisada de alunos da École Nationale Supérieure d'Arts na Villa Arson em Nice, a L'Orchestre Inharmonique de Nice. Aqui explorou-se a possibilidade destas "pautas" se poderem transformar em pautas musicais gráficas, simultaneamente introduzindo na equação uma outra presumida liberdade: aquela teorizada por John Cage e que advogava que as partituras gráficas poderiam libertar o intérprete.


Em 2024, e tendo como pano de fundo as celebrações do 50.º aniversário do 25 de Abril, uma segunda revisitação das Pautas é proposta por Pedro Rocha a Silvestre Pestana, desta feita entregando-as nas mãos do SuperNova Ensemble, um coletivo português de geometria variável e multidisciplinar liderado pelos músicos João Dias e José Alberto Gomes, com a intenção de se criar um espetáculo a ser estreado em Serralves. Nesta revisitação temos, por um lado, a propriedade da reativação de uma obra pertencente à coleção do Museu de Serralves, e por outro o interesse de Silvestre Pestana em se encontrar com recetores criativos da sua obra, com o ruído implicado nesse processo e em tornar-se agora, ele próprio, um recetor.


Em Pautas, 2024, a proposta é a de uma abordagem transdisciplinar à série de trabalhos de 1975 que envolve, não apenas a criação musical, mas também uma leitura visual densa, de interpretação logarítmica, com base em médias estatísticas, tal como nos é dada pelo processamento pela Inteligência Artificial. O layout padronizado das Pautas de 1975, mais próximo do tipográfico (e das partituras musicais), encontra a leitura das novas tecnologias. O "ver para ler" encontra o "ler para ver". E o público é convidado a subir a um palco e habitar um lugar onde se materializa esta encruzilhada. 


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