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![[Serralves] - SINGSPIELE](https://img.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/visuel-singspiele3_srouaud_cristina-grande.jpg?fit=fill&w=1400)
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«A história de cada pessoa faz-se através da sua necessidade ilimitada de ser reconhecida; a amizade designa essa capacidade infinita de reconhecimento. Imaginar que essa necessidade constante seja a do outro, que o outro, tal como nós próprios, esteja à mercê dessa exigência e empenhado em obter resposta, que se devore a si próprio e que fique como um animal se a resposta não vier, é a isso que nos devemos obrigar e é esse o inferno da vida quando lhe falhamos. O caminho do reconhecimento é o infinito: damos dois passos, não-se-pode.-fazer-tudo, mas ninguém se atreve a justificar, a não ser com um pouco de cinismo, o recuo perante tal tarefa…» (1)
Foi a partir deste fragmento de um texto de Robert Antelme que quisemos, neste trabalho, dar espaço e atenção a rostos, anónimos ou reconhecíveis, que, ao surgirem, captam o nosso olhar com a estranheza de uma perceção, no imediato inteligível. Um trabalho de escuta do que, de forma precisa ou confusa, estes rostos nos dizem dos seus corpos ausentes, a história particular que estes rostos mudos carregam e que nos escapará sempre. Falam-nos de um lugar que Jean-Luc Nancy denomina «o falar da falta de palavra», um lugar «antes ou após a palavra». (2)
Que mistérios irredutíveis se escondem por trás desta constelação de sensações que nos vem no contacto com o outro? Com o rosto do outro? Uma epifania que transborda as suas expressões, revelando então o invisível de um indivíduo singular ali diante de nós.
Maguy Marin
(1) Robert Antelme : Les principes à l’épreuve, artigo publicado a 14 de Julho de 1958 na revista « le 14 juillet » criada por Dionys Mascolo e Jean Schuster, incluído em « Robert Antelme - textes inédits sur « L’espèce humaine » essais et témoignages » - éditions Gallimard-
(2) Nancy, J.-L., Penser l’image, Paris, Les Presses du réel, 2010. p. 68-69
Quem é esta personagem de mil rostos que encarna a multidão de pessoas e de olhares enquanto se desloca lentamente da direita para a esquerda do palco? O enigma permanece intacto, pois a cada rosto que assume, logo surge outro. Assim, diante dos nossos olhos desenrola-se o cativante espetáculo de um indivíduo que se figura e se desfigura, vestindo sucessivamente todo o tipo de roupas e acessórios a um ritmo implacavelmente calculado. Na sua solidão, o homem que dá vida a estes novos traços combina-os com gestos e atitudes que, todas as vezes, revelam um novo significado, uma perspetiva antes ignorada, uma narrativa inesperada. Mas é também uma subversão permanente dos códigos e das funções que lhe estão associados. O masculino desliza para o feminino, a estátua de um guerreiro antigo torna-se Pietà, o homem comum prostrado ergue-se em besta mediática. David Mambouch, extraordinário intérprete desta performance, é absolutamente fascinante nas suas transformações «à vista».
Agnès Izrine
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«A história de cada pessoa faz-se através da sua necessidade ilimitada de ser reconhecida; a amizade designa essa capacidade infinita de reconhecimento. Imaginar que essa necessidade constante seja a do outro, que o outro, tal como nós próprios, esteja à mercê dessa exigência e empenhado em obter resposta, que se devore a si próprio e que fique como um animal se a resposta não vier, é a isso que nos devemos obrigar e é esse o inferno da vida quando lhe falhamos. O caminho do reconhecimento é o infinito: damos dois passos, não-se-pode.-fazer-tudo, mas ninguém se atreve a justificar, a não ser com um pouco de cinismo, o recuo perante tal tarefa…» (1)
Foi a partir deste fragmento de um texto de Robert Antelme que quisemos, neste trabalho, dar espaço e atenção a rostos, anónimos ou reconhecíveis, que, ao surgirem, captam o nosso olhar com a estranheza de uma perceção, no imediato inteligível. Um trabalho de escuta do que, de forma precisa ou confusa, estes rostos nos dizem dos seus corpos ausentes, a história particular que estes rostos mudos carregam e que nos escapará sempre. Falam-nos de um lugar que Jean-Luc Nancy denomina «o falar da falta de palavra», um lugar «antes ou após a palavra». (2)
Que mistérios irredutíveis se escondem por trás desta constelação de sensações que nos vem no contacto com o outro? Com o rosto do outro? Uma epifania que transborda as suas expressões, revelando então o invisível de um indivíduo singular ali diante de nós.
Maguy Marin
(1) Robert Antelme : Les principes à l’épreuve, artigo publicado a 14 de Julho de 1958 na revista « le 14 juillet » criada por Dionys Mascolo e Jean Schuster, incluído em « Robert Antelme - textes inédits sur « L’espèce humaine » essais et témoignages » - éditions Gallimard-
(2) Nancy, J.-L., Penser l’image, Paris, Les Presses du réel, 2010. p. 68-69
Quem é esta personagem de mil rostos que encarna a multidão de pessoas e de olhares enquanto se desloca lentamente da direita para a esquerda do palco? O enigma permanece intacto, pois a cada rosto que assume, logo surge outro. Assim, diante dos nossos olhos desenrola-se o cativante espetáculo de um indivíduo que se figura e se desfigura, vestindo sucessivamente todo o tipo de roupas e acessórios a um ritmo implacavelmente calculado. Na sua solidão, o homem que dá vida a estes novos traços combina-os com gestos e atitudes que, todas as vezes, revelam um novo significado, uma perspetiva antes ignorada, uma narrativa inesperada. Mas é também uma subversão permanente dos códigos e das funções que lhe estão associados. O masculino desliza para o feminino, a estátua de um guerreiro antigo torna-se Pietà, o homem comum prostrado ergue-se em besta mediática. David Mambouch, extraordinário intérprete desta performance, é absolutamente fascinante nas suas transformações «à vista».
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