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![[Serralves] - May B](https://img.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/foto-may-b-site_cristina-grande.jpeg?fit=fill&w=1400)
![[Serralves] - May B](https://img.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/foto-may-b-site_cristina-grande.jpeg?fit=fill&w=1400)
Esta peça a partir da obra de Samuel Beckett, cuja gestualidade e atmosfera teatral entram em contradição com a performance física e estética do bailarino, permitiu-nos criar as bases para uma decifração secreta dos nossos gestos mais íntimos, escondidos, menosprezados. Conseguir detectar esses gestos minúsculos ou grandiosos da multidão das vidas quase impercetíveis, banais, nas quais a espera e a imobilidade «não inteiramente» imóvel abrem um vazio, um vasto nada, uma extensão de silêncio cheio de hesitações. Quando as personagens de Beckett aspiram à imobilidade, não conseguem evitar mover-se; muito ou pouco, movem-se. Neste trabalho, à partida teatral, o que nos interessou foi desenvolver não tanto a palavra ou a fala, mas o gesto na sua forma explodida, na procura do ponto de encontro entre, por um lado, a gestualidade mais estritamente teatral e, por outro, a dança e a linguagem coreográfica.
Maguy Marin
MAY B hoje
por Jean- Paul Manganaro
«May B» é um relato distante, remoto, que surge de um tempo sem época, de uma vida sem ordem nem medida, de uma tensão enterrada nos devaneios do estranho, sem memória, sem história. A força e a potência de May B residem na capacidade de contar histórias de ruturas constitutivas, de partos e de infância, de grunhidos e gritos culminando no arco da sua narrativa — antiteatral pela sua extrema teatralização — na reconstituição de uma parada perfeitamente expressionista. É uma fábula matricial do corpo e dos corpos-a-corpo que põe em jogo, na sua recusa da narrativa, a forma da errância pelo continuo que gera e deixa surgir o dionisíaco como forma de moldar a continuidade de emoção e comoção, alcançadas pela cauda endiabrada do humor.
Ao mesmo tempo, May B consegue inscrever, na invenção de uma forma lírico-grotesca, a renovação daquilo que é «dançar», tendo em vista todas os possíveis que «dançar» oferece, e recolocando-as num jogo que acaba por arrastar a dança para dentro da dança. E a viagem que conclui a ação reúne em algumas malas as escórias da história de cada pessoa que parte para um destino sem destino. Como a ladainha final, repetida infinitamente num lamento balbuciante, cola e redistribuí todas as fraturas: os bailarinos devolvem a cada pessoa da plateia a imagem onírica dos Eldorados e das Terras Prometidas, bem como as soluções possíveis para uma história que afoga toda a angústia.
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Esta peça a partir da obra de Samuel Beckett, cuja gestualidade e atmosfera teatral entram em contradição com a performance física e estética do bailarino, permitiu-nos criar as bases para uma decifração secreta dos nossos gestos mais íntimos, escondidos, menosprezados. Conseguir detectar esses gestos minúsculos ou grandiosos da multidão das vidas quase impercetíveis, banais, nas quais a espera e a imobilidade «não inteiramente» imóvel abrem um vazio, um vasto nada, uma extensão de silêncio cheio de hesitações. Quando as personagens de Beckett aspiram à imobilidade, não conseguem evitar mover-se; muito ou pouco, movem-se. Neste trabalho, à partida teatral, o que nos interessou foi desenvolver não tanto a palavra ou a fala, mas o gesto na sua forma explodida, na procura do ponto de encontro entre, por um lado, a gestualidade mais estritamente teatral e, por outro, a dança e a linguagem coreográfica.
Maguy Marin
MAY B hoje
por Jean- Paul Manganaro
«May B» é um relato distante, remoto, que surge de um tempo sem época, de uma vida sem ordem nem medida, de uma tensão enterrada nos devaneios do estranho, sem memória, sem história. A força e a potência de May B residem na capacidade de contar histórias de ruturas constitutivas, de partos e de infância, de grunhidos e gritos culminando no arco da sua narrativa — antiteatral pela sua extrema teatralização — na reconstituição de uma parada perfeitamente expressionista. É uma fábula matricial do corpo e dos corpos-a-corpo que põe em jogo, na sua recusa da narrativa, a forma da errância pelo continuo que gera e deixa surgir o dionisíaco como forma de moldar a continuidade de emoção e comoção, alcançadas pela cauda endiabrada do humor.
Ao mesmo tempo, May B consegue inscrever, na invenção de uma forma lírico-grotesca, a renovação daquilo que é «dançar», tendo em vista todas os possíveis que «dançar» oferece, e recolocando-as num jogo que acaba por arrastar a dança para dentro da dança. E a viagem que conclui a ação reúne em algumas malas as escórias da história de cada pessoa que parte para um destino sem destino. Como a ladainha final, repetida infinitamente num lamento balbuciante, cola e redistribuí todas as fraturas: os bailarinos devolvem a cada pessoa da plateia a imagem onírica dos Eldorados e das Terras Prometidas, bem como as soluções possíveis para uma história que afoga toda a angústia.
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